terça-feira, 31 de maio de 2016

HOMEM

HOMEM 

Reescreva na parede, no guardanapo de papel, no espelho com batom, as frases que você disse um dia aos sussurros, aquelas mesmas que prometeu e um dia esqueceu depois da conquista.
Marque um encontro com ela, beije-a como nos velhos tempos, passeie de mãos dadas, displicentemente como quem não quer nada, só mesmo relembrar como tudo começou.
Puxe a cadeira, olhe nos olhos, busque as boas lembranças. Esqueça por algumas horas as contas, a rotina, faça amor como no primeiro dia.
Se puder leve flores ou palavras doces. O amor não acaba, se esconde. Busque! 

Salim Slavinscki 
23/05/2016

Alegria, o melhor remédio para combater os chatos

Cuscuz de geladeira 

Todos, sem exceção, têm aquele momento ruim, aquele dia em que a calcinha ou a cueca fica desajustada, e que insiste em entrar onde não deve; o calo resolve doer, acorda atrasado para um compromisso, e nada dá certo. Pronto, o dia foi pro saco! O mal humor perdura o dia todo. Mas é só mais um dia. Nada é por acaso, inclusive o mal humor. 
Existem pessoas que não conhecem a palavra alegria, bom humor, devem ficar o tempo todo com a peça íntima presa. Cara de carranca de barco, zangadas, reclamonas, se desejamos bom dia,  só faltam perguntarem por quê. 
Sei lá se são mal resolvidas, mal amadas, mal comidas ou passaram da hora. Também não sei por que associo as suas caras, com rosto de governanta de mansão de filme de terror. Fazem idéia?
Para que não sejamos contagiados por essa energia negativa, vamos semear um pouco de bom humor. É simples, basta lembrar dos nossos mais recentes micos!

"Alegria, o melhor remédio para combater os chatos"

Salim Slavinscki
30/05/2016

terça-feira, 3 de maio de 2016

"Para gostar de amar"

No tronco do Ipê amarelo em flor, um coração e duas letras sobrepostas em baixo relevo, muito provavelmente entalhadas a canivete. Não faço idéia de quanto tempo aquela prova de amor está ali. O coração, pelo contorno, firmeza e delicadeza, foi feito por mãos femininas; as letras certamente por um homem, tamanha a profundidade e aspereza no traço. 
A árvore, por obra e graça da natureza, preservou o desenho, a casca do tronco cresceu ao redor, fazendo com que a pequena obra de arte do amor, se destaque. 
Quantos anos terão passados depois desse entalhe? Será que o amor vingou? Se não vingou, as lembranças estão retidas no subconsciente subserviente de um amor juvenil. 
Quem não desenhou um coração numa árvore, à tinta de caneta esferográfica num papel de caderno, no pulso ou numa parede, não sabe quão singelo é um primeiro grande amor, que se perdeu na ilusão da vida.

Salim Slavinscki 
Numa noite fria de 02/05/2016

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O TOURO MANIFESTANTE

O TOURO MANIFESTANTE

A desconfiança se fez verdade, contendo a ira, a vontade de cometer um desatino, lhe corroia. Escondido atrás do galinheiro, entre bananeiras e uma amoreira, atento a quem entraria pelo portão da chácara, mal controla a respiração, o suor cobria-lhe o rosto,  umidecia o corpo sarado, o coração quase saindo pela boca, batendo mais forte do que bumbo de infantaria em dia de desfile cívico.
O portão é aberto, com cuidado e evitando fazer barulho, um vulto vai tomando forma à medida que avança pelo terreno coberto de grama bem cuidada e aparada. Fausto, do seu posto de observação, se agita, o sangue ferve em suas veias. Espera por longos e quase infindáveis 15 minutos para sair do esconderijo.
Caminha pé ante pé até a porta principal da casa sede. A porta está destrancada, entra. Na mesa de centro da sala de estar,  copos com restos de uísque, duas pontas de cigarros recém apagados, uma delas manchada de batom vermelho. Foi tomado por uma dor atroz, tremores nas mãos, era o ódio lhe dominando. Sacou a arma e invadiu o quarto.  À meia luz,  flagra sua esposa nua, sendo montada por seu comprade Clésio Ricardo. Susto, gritaria, pedidos de calma, não é o que você está pensando, vamos conversar...um tiro espoca, atinge a cabeceira da cama.
O casal amante, treme dos pés à cabeça. Fausto,  aponta a arma para a cabeça do Ricardão e brada :
- Seu filho de uma puta,  vais morrer!
Com tanta camisa pra usar,  pegou logo a amarela da seleção brasileira?
Eu ia usar na manifestação do dia 17/04 na Paulista!
Ninguém morreu, a discussão terminou virando debate sobre o impeachment e onde deixariam estacionado o SUV. Tudo para manter as aparências.

Salim Slavinscki
15/04/2016

quarta-feira, 6 de abril de 2016

"RITUAL"

Preparando o jiló, pouco condimento, cozido em água  morna, que deixei descansando por 24 hs. Fazer um gargarejo, dar um traquejo no corpo, enfeitar com a melhor vestimenta, usar o melhor perfume, ficar bem bonito. Caminhar pisando em nuvens, que é pra onde me leva a branca Janete.
Sacudir a moranga, ouvindo jazz, bossa-nova, um samba de raiz, sem me preocupar com que a Dilma diz.
Fazer uma prova de amor, um contrato de fé
Esperar a madrugada passar
O sol raiar, terminar nosso dia no Remenber Café
Dizer a ela, que quero dormir e acordar, vendo o seu sorriso
E que não prometo céus e o infinito
Mas que vou fazer seus dias, mais bonitos!

sábado, 26 de março de 2016

1968 O ano que não acabou - O Judas de um outro tempo

1968  o ano que não acabou  - O Judas de um outro tempo.

Não tínhamos uma idéia concreta sobre o Sábado de Aleluia,  só sabíamos que Judas havia traído Jesus.
Um trazia uma calça velha, o outro uma camisa,  o sapateiro doava um calçado velho, o quintandeiro e o feirante,  as palhas para o enchimento do corpo. A mãe do Zé Arnaldo,  o Naldo,  confeccionava a cabeça do boneco,  uma velha gandola militar, seria parte do uniforme do nosso Judas,  o tio do Nene,  dou um bibico,  cobertura para cabeça dos soldados. Medalhas de lata, ornamentava o nosso Judas General.
Era uma festa, a molecada se esmerava na feitura do boneco.
Boneco pronto,  amarrado no poste do cruzamento da Rua Batista Pereira com Rua João Guerra, uma corda no pescoço o enforcava,  ficava assim exposto até as 11:00 hs da manhã do sábado.
A criançada chegava em levas,  pedaços de pau nas mãos,  e uma sede enorme de fazer justiça. Eram em torno de sessenta crianças, adolescentes e alguns adultos já encharcados de Yaúca.
Aos poucos,  o Jair,  tio do Miltinho,  soltava a corda que prendia o corpo do nosso Judas,  criando uma certa tensão e expectativa.
O boneco desceu às 11 em ponto.  O pau comeu,  arrastado e malhado pela rua João Guerra, correria,  gritos,  vaias,  e uma ou outra: Abaixo a ditadura.
Era só palha e roupas rasgadas, destroçadas pela horda justiceira.
Jesus e o povo,  estavam vingados!

Salim Slavinscki
26/03/2016

quinta-feira, 24 de março de 2016

"O PATRÃO NOSSO DE CADA DIA, NO FIM DO DIA"

Uma xícara de café quente, recém passado; levado na cama,  ou à mesa, balcão de bar, padaria, no canto da sala de trabalho, sorvido aos poucos, pequenos goles, olhando pro nada; somente pensando no que poderia fazer com seu tempo. Divagações, suspiros profundos, a xícara posta de volta à mesa,  balcão, mesinha ou o copo plástico descartado no lixo do escritório.
Voltar à realidade,  encarar o fato de que mesmas responsabilidades,  tem o patrão. A diferença está em quem manda.
Sonhar não paga nada,  nem o cafezinho.

"O patrão nosso de cada dia,  no fim do dia"

Salim Slavinscki, março 2016

quinta-feira, 28 de maio de 2015

"CANDELABRO DO TEMPO"

Sair da casa dos trinta, é enveredar por um novo caminho, seguir em frente sem ter de olhar para trás e virar estátua de sal. Seguro de si, achando que acumulou muitas experiências de vida. Passamos a vida aprendendo. Quando bebê, a falar, andar, comer; na fase juvenil a sermos arrojados, desprendidos, corajosos para enfrentarmos as regras, os medos e as imposições. Nossos pais nos ensinam a crescer, nos preparam para o futuro que se avizinha com a fase adulta.
O hiato entre a adolescência e a fase adulta, é enorme, um oceano de dúvidas; um labirinto de anseios, questionamentos, incertezas, planos, fugas, esperas, mudanças físicas, amores, descobertas, sexo, perdas e ganhos. Então, tudo se soma, se divide, subtrai, e pouco se multiplica.
A trajetória da fase adulta se resume a poucas coisas, diante de uma nova ordem social que nada tem de novidade e , que se resume em: Formar-se, ter um bom emprego, sucesso profissional, ter independência financeira, amealhar bens, formar uma família, e seguirmos os mesmos exemplos dos nossos pais.
A única coisa que me parece intransferível, é o envelhecer. Nossos pais não nos ensinaram a envelhecer, como nos ensinaram a andar, falar, comer, crescer...
Hugo Carvana, disse certa vez:
- Fugir do envelhecimento, é esquivar-se da razoabilidade.
Olhar para trás depois dos 50, é rememorar toda uma experiência de vida, dela tirar exemplos memoráveis, mesmo que sejam apenas pequenos resquícios, fugazes lembranças, flashes episódicos risíveis, tristonhos, alegres, felizes, mas que tivemos o direito de viver e, isso não pode ser negado, nem roubado. 
Envelhecer, no entendimento dos jovens, significa a espera pela morte. Mal sabem eles segurar o candelabro que ilumina os seus caminhos e, nem  enxergar na escuridão do tempo que virá.
Já fomos jovens !




domingo, 3 de maio de 2015

TÔ ENTENDO NADA !

O frio, o inverno para alguns, é sinônimo de elegância, de aproximação e calor humano, de boa gastronomia, de degustar um bom vinho, de fazer programa a dois, viajar no fim de semana para a montanha, fugindo do caos das grandes cidades.
De alguma forma, de alguma maneira, em algum momento ou circunstância da vida, temos os nossos "desbundes", queremos ou desejamos fazer coisas inusitadas - seja por convenções ou até mesmo por questões econômicas - na maioria das vezes nos desencorajamos. Quantos, dentro desse pequeno universo de alguns, não gostariam de segurar entre dedos um punhado de neve? Quantos outros tantos, não gostariam de estar numa praia, o sol à pino, e o corpo mais suado que pão doce de confeitaria? Somos assim, descontentes ou infelizes com as nossas condições.
Diante desses questionamentos todos, fico a pensar:
- O que é convenção social? Que parâmetros são utilizados para determinar uma convenção social?
Em dias em que o rabo está abanando o cachorro, fico em dúvidas, já não sei se, ser heterossexual fere às novas convenções ou àquilo que convencionaram ser convenção!
Fui claro ?

sexta-feira, 17 de abril de 2015

" Dona Bibyana, os gatos e os cães"

Quando criança, ouvia das conversas captadas pela minha curiosidade infantil, e ouvidos sempre sintonizados no colóquio alheio, palavras que vazavam das rodas de bate papo do meus pais, tios, tios-avôs, parentes e agregados, e que para  mim soavam estranhas;uma delas era : Matrona. Ficava encafifado com a sonoridade, com o tom como ela era dita. Aquilo me dava comichões. Vez ou outra, quando descoberto, era convidado a me retirar dos arredores da cozinha ou da sala, 
sob o olhar severo dos olhos verdes da minha mãe. Não precisa dizer palavra, bastava só o olhar 
que me fuzilava. E quando passava por mim, já distraído a brincar com os primos e irmãos, ela dizia: 
- Depois nós conversamos
O dia acabava ali pra mim, sabia que o couro ia comer.
Os anos se passaram, e muitas e muitas Matronas depois, passando por umas das ruas no centro de São Vicente, me deparei com uma casa antiga, deve ter uns 60 anos ou mais, muro de pedras cinza-chumbo, não muito alto, grades de proteção da mesma cor, garagem à esquerda, portões de ferro do mesmo tom. Um jardim pequeno; roseiras, Marias-sem-vergonhas, onze-horas, azaléias, cravos-vermelhos, um araçarizeiro, pitangueira e gatos, muitos gatos. Pretos, brancos, amarelos, cinzas, marrons, que zanzavam pelo quintal. No que seria uma varanda de piso avermelhado, uma senhora de uns 80 anos ou mais - tez e cabelos branquíssimos, bochechas rosas, rosto vincado, óculos de lentes fortíssimas, destacavam seus lindos olhos azuis, arqueada pela idade, corpanzil, não era uma mulher alta - trazia em uma das mãos um pote de alumínio, com a outra batia com uma colher de pau, no pote, e emitia, com sua voz quase sumida, palavras que para mim soavam familiar, os bichanos atendendo ao chamado, se aglomeravam à frente da velha senhora que caminhava com certa dificuldade, distribuindo o que deveria ser uns biscoitos. Falava com eles como se fossem crianças, sorria feliz. Imediatamente fui remetido ao passado, e lembrei-me dos sons daquelas palavras; eram, em sonoridade, as mesmas de meus avós, tios-avôs, e parentes da velha Rússia, sem me esquecer da parte romena (essa era a herança da minha avó), que me soava mais familiar.
Dias atrás, caminhando pelo centro, parei em frente à velha casa, o jardim estava no mesmo lugar, os gatos e a velha Matrona não. Seu neto, muito educado por sinal, disse-me que ela partira há alguns anos, aos 98 anos, dormindo, sem sofrer, plácida. Era russa, amava o Brasil, plantas, gatos, calor e mar. Seu nome era Nádia, ou como todos a chamavam: Dona Bibyana




terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

"UNIDOS DO LARGUINHO" - SÓ PARA ADULTOS

Alôoooo comunidadeeeeee
Arreeeeebentaaa bateriaaaa...
A horaaaa ééééé esssaaaaa...!!!

Foi no larguinho
que bloco surgiu
Ele foi feito como muito suor
e trabalho
Mas no fim 
deu um bode do caralho

Tamborim era feito de couro de pica
dedo no cu fazia parte da cuíca
Quem não sambava
levava um cacete
e o estandarte era paninho de paquete

Cai, cai cai 
na piroca do meu pai
Sua mãe
é puta velha
O seu pai
é cafetão
Sua irmã 
é uma biscate
tem seis filhos a prestação

Deixa o dia clarear
pra acabar com essa suruba
Pois a energia foi cortada
e estão querendo botar na mina bunda

Carnaval em tempos modernosos

sábado, 7 de fevereiro de 2015

"CARÊNCIA É FODA!"

Carência afetiva, é a espoleta da encrenca. Nesse processo a guarda fica baixa, o coração vulnerável, os sentidos ficam mais perdidos que cachorro em dia e mudança. Basta uma palavra carinhosa, um gesto gentil do sexo oposto para detonar uma explosão de hormônios e de sentimentos exagerados. Em tempos de relações superficiais, efêmeras, qualquer sinal mal interpretado, é entendido como fumaça, e onde há fumaça, há fogo. Valei-me Nossa Senhora da Anunciação !
Jessé, um camarada boa praça, amigo de todos e de todas as horas, bom coração, às vezes ingenuo nas coisas do coração. Apaixonava-se com tamanha velocidade e frequência, que a próxima sempre seria a mulher da sua vida. Era um tolo, e com uma compulsão enorme para ser corno.
Foi numa noite quente de verão, na balada regada a cerveja, caipirinha de cachaça, uísque, tequila e samba, que ele conheceu Maria Júlia; morena de olhos verdes, cabelos pretos, corpo escultural, tinha mais curvas que a antiga Estrada de Santos, tão felina quanto onça criada em casa, carinha manhosa de menina pidona, voz de FM. Foi amor à primeira vista. Saíram do samba direto pro berço. O sexo foi excepcional; Maria Júlia era uma catedrática na arte, deu-lhe uma surra de coisa.
Semanas se passaram, e nada da morena atender às muitas e muitas ligações, mensagens melosas e cheias de romantismo. O desespero tomou conta do Jessé, a todo custo queria quebrar o silêncio e reencontrar a sua musa. Até que um dia descobriu o endereço da sua deusa.
Era um bairro residencial de classe média, uma casa de tijolos à vista, arquitetura dos anos 40, jardim bem cuidado, portão de ferro fundido pintado à esmalte. Entrou sem se anunciar, foi recebido por uma senhora de uns 60 anos, mal acabada, e com resquícios de que um dia tenha sido bela. Recebeu uma senha. Aguardou por cerca de 3 horas. Entrou no quarto, luz âmbar, o lusco-fusco não o impediu de vislumbrar o mesmo corpo escultural dourado vindo em sua direção.
O choro copioso, soluços, lágrimas, tremores, não refrearam o êxtase, a vontade, o tesão; fizeram amor por horas. Dormiram abraçados.
O dia raiou, o dinheiro ficou na cabeceira da cama, não quis tomar o café da manhã a que tinha direito, só uma xícara de café preto e uma bagana do fumo paraguaio fumado na noite anterior.
Carência elevada a terceira potência, se não brochar, dá prejuízo no bolso !

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

"CAMAS REDONDAS, CASAIS..."

Luzes acessas, janelas abertas, ar condicionado desligado, frescor da tarde entrando pelo quarto, os dois deitados, estirados na cama, no estágio do pós. Olhos pregados no teto, quietos, respiração curta, estado zen.
A vida passara rápido para os dois; cada um vivendo seu próprio tempo, experiências e vidas. Seus caminhos se entrecruzaram, porém jamais se fundiram. Estavam ali como numa despedida de uma noite morna; pesando a relação.
Não havia fumaça nem odor de fumo, apenas o cheiro forte de álcool  dos muitos copos de tequila, uísque, vinho tinto e garrafas de cerveja, recendendo no ar.
Deixaram de dizer um para o outro, em noites anteriores, o fundamental, talvez por saberem que não iriam até o 3º capítulo. Tudo sempre ficava pairando nas dúvidas, nos medos em apostar, em se apossar, e deles sobreveio o tempo exato para desistir, abandonar o barco.
O ventilador ligou automaticamente, girou célere, misturando pensamentos, desfazendo vontades, trazendo os dois de volta à realidade.
Vestiram-se cerimoniosamente pela primeira vez, fecharam a porta do quarto, pagaram a conta. Adeus, boa sorte.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

"DOCES MEMÓRIAS MUSICAIS E OUTROS ROMANCES"

"Quando entrar na vida de alguém, não entre pelo final. E se sair, deixe um caminho de flores sem espinhos, as portas sempre abertas para quem as abriu, pra você passar!"

Não é um lema, nem muito menos uma filosofia de vida, é apenas uma maneira de entender que tudo tem começo, meio, fim e reticências. Como um bom perfume que aromatiza o ambiente, e que com o passar do tempo se volatiza; assim são as relações, os amores, que deixam no ar da memória a fragrância e o frescor do bom perfume. Relembrar as ruins, é uma história sem cor, sem elo, sem atracadouro, sem porto, nem âncora; um barco sem vela que segue sem rumo ao sabor das marés.
As boas, vividas, ou até mesmo as findas, têm roteiro, tema musical, trilha sonora, daquelas de nos fazer estampar um sorriso largo no rosto, já nos primeiros acordes. 
Não temos inteligência para construirmos uma máquina que nos faça viajar no tempo, e lá
revivermos os bons momentos, porém temos memória seletiva para viajarmos a determinado tempo que uma canção, o aroma de um perfume, uma paisagem, um prato, uma bebida... nos levem!
Quem foi, passou, e não deixou a porta aberta, não recebeu as flores.

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

"ANGEL II"

Era só um tempo passando
uma papo sem ônus, nem bônus
Um querer ganhar e perder
Um dia indo, outro voltando

Um amanhecer, um entardecer,
noites chegando,
madrugadas infindas

Muralhas erguidas,
intransponíveis, 
medos e angustias

Sorrisos, risos,
descobertas, 
muralhadas rompidas,
portas abertas

Mais vindas do que idas,
A presença certa, 
a acolhida

O colo, o ombro
a palavra na hora
e na medida certa

O conforto, 
A lagrima dividida,
o choro, o riso, e o gozo

Deu muito,
de tudo um pouco






quarta-feira, 29 de outubro de 2014

"É HORA DE AGLUTINAR" - (in Um país de bundas lelês)

Nos anos de chumbo da ditadura militar no Brasil, de  1964 a 1985, não podíamos nos manisfestar, nos agrupar, nos reunir, ter posição política,  ou fazer oposição ao regime ditatorial, criticar, nem pensar !
Ocorreram excessos dos dois lados, do regime ditatorial e dos opositores. 
Passados mais de 29 anos desde a restauração do estado de direito democrático, vivemos alguns períodos de incertezas. Crises e mais crises econômicas, vários e vários planos para ajustar a a economia. Chegamos a patamares de mais de 3 dígitos de inflação, e muitos ganharam com tudo isso. Bancos, empresas nacionais e multi nacionais. E o povo, o último na ponta da corda só ficou com prejuízo, como sempre. Começava então, o fenômeno da migração de brasileiros para países estrangeiros; Japão, Alemanha, Portugal, Espanha, Itália, EUA, Canadá dentre outros. Todos iam em busca de melhores salários e oportunidades. Não havia como confiar numa economia tão fragilizada. 
Já cansados de incertezas e promessas; em fins da década de 80 elegem F.Collor de Melo para a presidência do Brasil. Com uma oratória inflamada, ufanista, social democracia e populismo, prometendo um choque na economia, na envelhecida e carcomida indústria nacional, abriu os portos para as importações de veículos, e eis que de repente, deu um duro golpe nos poupadores, especuladores e no povo em geral, confisco das contas correntes e poupança. Um governo marcado por escândalos e corrupção, chega ao fim apeado do poder.
Mais saídas pela porta de emergência. Com mais essa decepção, muitos brasileiros saíram do país em busca de trabalho e qualidade de vida. Encontraram o subemprego, e se submetendo a trabalhar como operários em linha de produção, mesmo tendo o chamado canudo universitário.

Era da social democracia "tucana", de Itamar a FHC.
Reestruturação econômica, realinhamento político, deflagração do Plano Real, venda das empresas estatais, estabilização econômica,  planos para inclusão social das camadas mais pobres da população, reestruturação da previdência social. Incentivo às montadoras automobilísticas a se instalarem no país, às exportações, etc...
As maiores críticas ao governo tucano, foi a venda das estatais recebendo por elas as chamadas moedas podres, caso até hoje mal explicado, assim como os das empresas que eram estáveis. A compra de votos no congresso nacional para que projetos pudessem receber votações favoráveis. Escândalos de super faturamento, que habilmente foram varridos para debaixo do tapete. E as mudanças na área previdenciária que tiraram dos trabalhadores direitos adquiridos, perdas e achatamento salariais de aposentados até hoje não recuperadas. Política de arrocho salarial através de índices manipulados para a fixação do salário mínimo, ágio na compra e venda de veículos novos e usados, altas taxas de juros.
Com a economia equilibrada, Luís Inácio da Silva, o Lula, assume a presidência...

Próximo capítulo só amanhã !

P.S.: não sou economista, não sou biógrafo, se errei é porque a memória já não é a mesma.

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

" Assim, assim..."

A cerveja com gosto de cinza de cigarros fumados, 
noites vividas, tardes divagadas, 
manhãs e noites fugidias, 
daquilo que em verdade quer, 
mas tem medo. 
Da vida desregrada, 
do dia que será tarde,

da tarde que será noite, 
madrugada que vira dia.

As vontades e mentiras, criadas, projetadas, ditas; 
das experiências que cobra a si, 
que quer vislumbrar, tornar realidade, 
um dia-a-dia,
ter uma vida que começa e termina. 
Manhã, tarde, noite, um dia, 
uma madrugada no meio

De pés frios, 
ficar em conchinha
ouvir dizer :
tu és minha
Sem regras, horas, onde,
 e quando, se inicia
ou hora que termina

Olhar nos olhos
na noite, na madrugada,
vestida, nua, mas que seja
no dia que se anuncia...

Que seja por horas,
por dias,
que seja na noite,
em que o dia termina...





sábado, 11 de outubro de 2014

"SOBRE AS MULHERES - DIVAGAÇÕES SOBRE O TRAVESSEIRO DE PENAS DE GANSO"

Não sou especialista nas questões femininas, nem feministas, mas mulher é um universo à parte, disso não tenho a menor dúvida!
Tentar entendê-las é para poucos, na verdade para nenhum, Inexiste alguém que consiga desvendar todos os seus mistérios, seus escaninhos, pois são absurdamente cheias de segredos, uma teia complexa, um rede de tuneis com muitas entradas, e poucas saídas, mal comparando, seriam como um labirinto, por onde caminhamos sem ter a certeza onde começa ou termina.
Certa vez ouvi de um amigo a seguinte definição:
- Cabeça de mulher, é como cartola de mágico, nunca sabemos o que pode sair dentro dela!
Não estou aqui, mal dizendo as mulheres, longe disso, eu bem as digo, louvo, adoro, amo; sou um aficionado apaixonado por mulheres e, por seu mais intimo, recôndito, ou indecoroso segredo.
Observo a mulher, não só sob um prisma pictórico, a enxergo como uma musa, e assim  todas elas são para mim, uma obra de arte viva em profusa evolução.
Estão tão evoluídas, tão à nossa frente, que muitas nem precisam de nós. Infelizmente, não posso incluir uma parcela maior, porque sempre há os porém. Mas disso não cabe falar agora.
E por mais adiante que estejam, tão independentes, auto-suficientes, o fator preponderante no pensamento feminino, ainda é o parceiro ideal. Não, não aquele mantenedor, gestor, aquela figura patriarcal - apesar de que algumas sonham em ter um homem rico, que lhes faça todos os desejos materiais e se possível os sexuais, coisa de livro cinza - o que elas querem, é um homem tão moderno e evoluído quanto elas. Um raridade nos dias atuais. O cara tem de ter algumas qualidades, tais como : ser parceiro, amigo, colega, confidente, bom ouvidor, ombro amigo, conselheiro, cavalheiro, sensível, bom caráter, fiel - dentro daquilo que fica acordado entre os dois- bom amante, que saiba entendê-las e, que quando estiverem na tristeza, as abrace, na louca TPM, se fastem, quando estiverem abrasadas, que a suavidade de uma boa pegada apague seu fogo e, as leve às nuvens.
Algumas não se importam em dividir a conta do bar, restaurante, motel, hotel, mas desde que o prazer também seja bem dividido e nada egoísta.
E para finalizar, devemos entender e também deixar claro para elas, que não existe perfeição dentro e fora das relações, sejam a dois, ou na sociedade. Não se pode exigir, demais, cobrar demais, dar-se demais sem contra-partida, amar incondicionalmente e perceber que ele (o amor) se finda, e que o tempo se encarrega de dar um novo rumo à relação, sem medos dos desafios que virão, não fingir e principalmente compreender que mentir menos, pode !

terça-feira, 7 de outubro de 2014

"ELAS, SEMPRE ELAS"

Quem tem, tem, quem não tem vai arranjar...

Diz que é independente, e que não quer saber se serpente, quer ser pente. Desliza o belo figurino, casual, modernoso, sóbrio, esportivo, clássico; vai e vem, sapateando delicadamente na calçada de cimento; cabelos tratados, unhas bem feitas,  por onde passa o perfume exala. Protótipo de mulher, mulher.
Belas, ou nem tanto, jovens, maduras, sisudas, simpáticas, atrevidas, daquelas que retribuem o olhar, olho no olho, sorriso maroto, mesmo que eu as observe por de trás das lentes escuras dos meus óculos, ainda assim, com uma leve jogada de cabelos para os lados - artifício da maioria - de soslaio, disparam uma olhadela só para confirmar. Outras param diante das vitrines, observam roupas, sapatos e acessórios expostos, e pelo reflexo dos vidros, também nos observam. Um jogo interessante que faz bem ao nosso ego,  o meu e ao delas.
Freqüentemente caminho pelos calçadões, gosto de ver o vai e vem de gente apressada,  o 
burburinho, a loucura expressa no rosto de alguns passantes, indo ou vindo do trabalho, das filas dos bancos e lojas de departamento, de olhos colados nas telas azuis dos celulares, desligados do mundo exterior, viajando pelas redes sociais. E nessas andanças observo o caminhar das mulheres, a leveza na troca dos passos, a coordenação de mãos e braços, a postura, a altivez, a combinação de cores nas roupas, calçados e adereços; descarto os estandartes ambulantes apenas numa breve olhada. Gosto do balançar das ancas, o rebolado suave, ritmado, a harmonia entre traços, gestos e modos, isso tudo somado e convergindo para um desfilar sensual, e não sexuado, sexista proposital. Elas, as mulheres, são femininamente espetaculares. Eu as amo !

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

"INFÉRTIL"

Ressentimento:
regicídio do mais profuso 
e profundo sentimento
Donde se despregam, 
se esfacelam corpo e alma

O amargo fel da vingança,
que envenena, trucida
toda esperança,
matando o coração





segunda-feira, 1 de setembro de 2014

"Back to back, bags and luggage or boxes"

Uma mensagem curta, direta, sem rodeios, apenas um breve aviso : O crucifixo, benzido, ungido, que te dá proteção, chega na terça-feira. 
Talvez seja um estigma, uma sina, ou coisa parecida, as caixas, bagagens, sempre nos acompanham pela vida, no ir e vir, nas mudanças, cheganças, partidas; carregam boas lembranças, traços, lastros, perfumes e cheiros, memórias. Provavelmente, nem precisemos do conteúdo, mas amiúde recorremos às nossas caixas interiores, e delas retirando resquícios de outrora alegrias, risos perdidos, portentosos momentos felizes, mas que se foram no apagar dos tempos. Não como rever álbuns de fotos empoeirados, de poses quase apagadas, ou brevemente ensaiadas, que nos fazem estampar um sorriso, ou soltar um riso,  que quase nunca é contido, pois o tempo passou, e aquelas figuras retratadas já não são as mesmas. Muito se foi com o tempo, o viço da pele, a mocidade, a jovialidade, os cabelos, o corpo curvilíneo, a moda nos trajes, e quando não, alguns se foram.
Diferentemente dos álbuns, as caixas resgatam em segundos, tudo que passou, o que ainda ficou,
ou o que está indo para o fundo das lembranças das memórias secretas. 

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

"TODA MULHER SONHAR TER..."

Ainda há sonhos, ainda há os sonhares, uma chuva de rosas vermelhas, um buquê inesperado deixado na soleira da porta com um cartão anônimo; uma noite regada a champanhe, luz de velas,  jantar a dois. Alguém  que puxe a cadeira, abra a porta gentilmente, que leve café na cama, que reconheça os signos, os códigos de uma leve levantada de sobrancelha, que perceba as nuances que cercam os dias que antecedem a TPM, que saiba ver nos olhos um pedido, nos gestos anseios, tristezas, felicidades e alegrias. Que possa ser o ouvidor, o conselheiro, ou que simplesmente silencie nas horas de fúria. Que seja o amante ideal, que a transforme em dama no social, e uma prostituta na cama. Que não esqueça as datas, aniversário, de casamento, do noivado, primeiro encontro, primeiro beijo, primeira transa. E o que também é importante, chocolate, muito chocolate, branco, doce, amargo, meio amargo, bombons, trufas, uma taça de vinho, que nunca a presentei com aparelhos domésticos, louças, enfeites de geladeira.
E, quando forem para o motel, o qual sempre sonhou um dia ter uma noite de amor, deixe que leve de brinde a toalha, os chinelos e shampoos.
Cada uma tem um sonho, e cada uma idealiza seu grande amor, seja ele montado no cavalo branco, numa Lomborghini, Ferrari, SUV branca. Que a leve numa tour por Paris, Nova Iorque, Londres, Alpes Suíços, e que no verão passem num chalé a beira mar.
Mas que nunca as impeçam de sonhar, de idealizar !

terça-feira, 19 de agosto de 2014

"back to back"

Um dia atípico, tarde modorrenta, e início de noite sem sabores, sem os mesmos aromas, ainda que o mesmo doce perfume; uma noite de dúvidas, dívidas interiores, cobranças. Ventos frios, gélidos, arrepios não causados por tesão ou amor sem sentido, talvez vislumbrando, antecipando o sal amargo, um trago abusado de álcool sem a mesma energia antiga, causada por uma confissão fora de hora, dessabor em saber que não tem a mesma importância que já teve um dia.
Proposital ou não, enterrou o que ainda latejava, vivificava insistentemente, mas que morreu no dia.
E o dia virou noite, a noite madrugou em sonhos ruins, em percepções tristes, insensíveis.
A noite das descobertas, de comemorar uma data, de renovar as esperanças renascidas como Fênix, naquela tarde-noite-madrugada-dia.
Vou enterrando o que sinto a cada dia !



quinta-feira, 14 de agosto de 2014

"ENSAIO SOBRE CHINELOS...PARTE II - O começo do fim"

Camisa, blazer e chinelos esquecidos, não são o bilhete de regresso; o presente guardado e não entregue por falta de data, embalado numa caixa com estampas coloridas em relevo, envolto num 
golden bag, tem destinatário, endereço certos, mas não o mesma aura de quando é entregue em mãos; não faz brilhar os olhos, não arranca sorrisos francos, às vezes tímidos, não leva o calor de um abraço apertado, um querer eternizar o momento selado com um beijo. Fica só a frieza de um papel assinado, um canhoto acusando o recebimento. A memória veloz voltando no tempo onde a despedida era breve, sabendo de um novo reencontro sem data definida. A expectativa não é a mesma, pois sabe que não mais haverá um possível retorno. O presente recebido carregado de passado, vai ter o aroma do mesmo perfume, atiçando memórias olfativas. Talvez viajar aos bons dias, às risadas, os olhares, os toques, carícias...
Um dia quem sabe o presente enfeitará o corpo, então sorrirá no apagar da noite no começo de um novo dia.

domingo, 27 de julho de 2014

"A MORTE, E A QUASE MORTE DA SENHORA CONFIANÇA"

Não nasce por si só, necessário se faz saber escolher o terreno, arar a terra conquistada na labuta, prepara-la, aduba-la, trabalhar arduamente, entregar-se totalmente; saber interpretar os sinais do tempo para poder semear. Semeado o campo,  zelar para que as sementes plantadas não fiquem vulneráveis às intempéries, aos pássaros e às ervas daninhas. Da boa terra, a boa semente, há de ser ter uma colheita generosa, bons frutos. 
Exemplo de reciprocidade ? Dar e receber ?
Não sei se vou me fazer entender traçando esse paralelo entre a semeadura e a confiança.
Confiança, uma palavra tão em desuso nos tempos atuais, onde quase todos são fúteis, transgressores, transitivos, efêmeros, voláteis; nas ações, assim como nas relações interpessoais, sociais, e nas de convivência sentimental/amorosa.  Valores vão sofrendo reveses; há ainda as mudanças comportamentais que afetam intrinsecamente a ética. Nem se confia, nem disposição encontramos para conquista-la. Estamos vivenciando um fenômeno social e moral, no que diz respeito à ética. Seria uma crise moral ou de costumes ?
Afirmar com convicção que o indivíduo é confiável, seria inocência, purismo, ingenuidade, ou uma demonstração de elevada virtude ?
Os depósitos que fazemos nessa conta, requer a contra partida, os frutos que colhemos hoje da árvore da confiança, antes foram  as sementes que plantamos no campo.
Colher o que se plantou. 
Confio, ainda que em mim não confiem !

sexta-feira, 18 de julho de 2014

" BUCHADA DE BODE NA CASA DE SERENO"

A rua era um areal só, quando ventava levantava um poeirão, sujando tudo, impregnando os rostos suados e as roupas no varal. Dizem que quase não chovia na cidade há pelo menos 2 anos, e a pouca chuva que caía, mal chegava a 15 mm por ano; o ar era rarefeito, pesado, poluído, as nuvens ao sul, eram avermelhadas, as mais próximas da  serra eram enegrecidas, culpa da aciaria, uma  siderúrgica estatal implantada nos áureos tempos da ditadura Vargas. O sol de verão era inclemente, batendo fácil 43 graus à sombra. O pequeno canal que cortava a rua, estava mais seco que língua de papagaio de puteiro, o odor que dele saía era insuportável.
Crianças brincavam, corriam de um lado para o outro, mal sem importavam com o calor.
Dona Sebá, uma senhora de traços nordestinos, mulata, de pouco mais de 60 anos, rosto vincado pela passagem do tempo, e pelos muitos partos, pequena, de corpo roliço, pernas arqueadas, com seu inseparável pano de prato numa das mãos, ia e vinha ao portão. Estava ansiosa. Todo dezembro era isso : agonia, ansiedade pela vinda dos parentes que moravam na capital. Para ela era um acontecimento, alegrava-se, ria solto, feliz, de deixar ver sua boca vazia de dentes, e de fazer ouvir sua gargalhada engraçada.
A parentela chegou ao cair da noite. Exaustos, suados mais que tampa de chaleira, esgotados pela viagem de trem, e famintos. Banharam-se, mataram a fome; reunidos na cozinha, todos falavam ao mesmo tempo, assuntos na faltaram.
O aroma do café invade a casa, Seo Sereno preparou, pôs a mesa : Tapioca doce e salgada, cuscuz, mandioca cozida, pão de ló, suco de graviola, leite, queijo coalho, bolo de fubá, pão de sal e goiabada cascão. Uma a um, hospedes e moradores da casa foram se chegando.
Seo Sereno e seu meu irmão Bio, sorviam uma xícara de café, e pitavam um cigarro de fumo de Viçosa, enquanto iam afiando as facas que iriam sangrar o bode. Pediram para que as portas de acesso ao quintal fossem trancadas, e que as crianças fossem mantidas na rua; não queriam ouvir "xororô".
Do couro saia as correias, o couro do bode estava lavado e estendido na cerca, virado para o sol, a carne cortada, os miúdos separados. Natal sem carne de bode na casa de dona Sebá, não é Natal. 
Cirurgicamente os miúdos eram cortados em cubos, lavados, e postos na peneira. Na cozinha, as mulheres cortavam e picavam cebola, alho, salsa, coentro, pimenta de cheiro, entoando cantigas das velhas lavadeiras do São Francisco. 
O panelão de 40 litros trepidava no fogão a lenha, as carnes cozinhavam, borbulhas soltavam o perfume dos temperos no ar: cominho, pimenta do reino em grão e moída, colorau dando cor às carnes. Na outra menor, estava o corredor do bicho (cervical), pouca água para receber o arroz cozido de final. No braseiro à carvão, estavam sendo assadas as carnes com osso. No fogão da cozinha, a buchada. O cheiro era forte, caldo escuro envolvendo bucho e miúdos, feito na banha de porco e da sangria do bode. Comida para os fortes !
Meio dia, sol à pino, cachaça de alambique, licor de jurubeba, vinho tinto suave e seco, passando de mão em mão,  as cervejas trincando de tão geladas que estavam. Vozerio, cantorias, risadaria,
algazarra, a cozinha era pequena para tanta gente. Espalharam-se pela casa. Os mais velhos à mesa, os pequenos na mesa da sala, ou se ajeitando pelo chão, os mais jovens e afoitos, foram para os quartos disponíveis.
A buchada foi servida. Quem aguenta se agarra, quem não gosta, come arroz com batata.
Dezoito horas, parada para oração de agradecimento.
Retomada, e tome "canjebrina", carne de bode assada, cozida, com arroz, feijão com quiabo, e a famosa buchada.
O calor e a carne forte, fez vítimas, no banheiro o tráfego era intenso.
" Candeeiro se apagou, o sanfoneiro cochilou..."

Para João Ubaldo Ribeiro, que se foi fora da hora combinada.

E viva o povo brasileiro !





quinta-feira, 17 de julho de 2014

"AS CRIANÇAS E AS SUAS PERGUNTAS"

Fazer uma criança entender os "por quês" do envelhecer, não é tarefa fácil, até mesmo para nós adultos a missão é árdua, Dependendo da idade da criaturinha então...só Deus na causa !
Criança é perguntadeira; dos 5 aos 7 anos é quando se lhe desabrocha o interesse em saber como funciona o pequeno universo ao seu redor. Tenho filhos ainda pequenos, netos, sobrinho-neto, e vez ou outra me encostam na parede com perguntas capciosas, quase  sempre  enredadas
nas brincadeiras da vez.
Não faz muito tempo, meu sobrinho-neto me fez a seguinte pergunta :
- Ô tio ! Avião voa mas não bate asas, né! Porque ?
- Por que céu não tem cabelo onde ele possa se segurar ! (respondi)
Nascemos e vamos nos desenvolvendo de acordo com que nos ensinam, vamos assimilando, aprendendo, crescendo e acumulando lições e exemplos. Aprendemos a engatinhar, falar, andar - não necessariamente nessa ordem - à medida que crescemos, evoluímos, passando por todas as fazes, bebês, criança, pré-adolescentes, adolescência, adulta, maturidade, envelhecemos, nos tornamos idosos, sempre acumulando lições, sendo exemplos, e aí finda-se o ciclo.
Na verdade nós crescemos, evoluímos, ou só nos preparamos para nos tornarmos velhos ?
Aí está uma pergunta de criança !

terça-feira, 1 de julho de 2014

" JANELA INDISCRETA III - PONTO FINAL "

Subiu as escadas dos três pavimentos como que em peregrinação, em promessa; resoluta, venceu cada andar sem nem ao menos ofegar. Sua figura contrastava com as luzes ocres, quase apagadas que iluminavam a escadaria do edifício. Ainda respeitava o luto, cores enegrecidas nas vestimentas, saia, meias, botas, blusa e um sobretudo da mesma cor, pretos como seus cabelos longos e lisos. A maquiagem sóbria, deixava seu rosto  bonito, mais iluminado.
Abriu a pesada porta, por alguns segundos ficou paralisada, fitou todo o ambiente. Alguns passos e adentrou à sala; livros repousando na mesa de centro, copos, cinzeiro abarrotado de guimbas de cigarros, velhos LP's espalhados pelo chão, no ar pairava o forte cheiro de fumo, cerveja e uísque, cortinas semifechadas, dava um aspecto de penumbra à sala. Descerrou as cortinas, abriu as janelas, deixou oxigenar o velho apartamento.
Descalçou as botas, as meias, despiu-se displicentemente, vagou pelos cômodos como se quisera encontrar ou ressuscitar o morto.
Encheu um copo com uísque à cowboy, ligou o velho toca-discos, escolheu um disco de Jobim, deixou que o som de Wave tomasse toda a sala, alto e suave, prostrou-se no sofá puído, e se deixou levar pela música.
Jamais havia confessado seu amor ao velho escritor, mesmo nas horas mais cálidas, nos jantares, nas noites de furor insano de sexo e bebida.
Chorava, as lágrimas de Layla, desciam por seu belo rosto, como água de cachoeira, soluçava e se penitenciava por não haver dito : Eu te amo
Adormeceu bêbada, nua em pele e sentimentos.
A noite caiu, fria, gélida e com ventos.
Os mortos não voltaram


sexta-feira, 20 de junho de 2014

"PARTIU FORA DA HORA COMBINADA"

As chegadas são mais alegres, felizes e festivas do que as partidas. A primeira é cercada de expectativas positivas, boas energias, ansiedade, friozinho na barriga, um quase êxtase .
Quem já foi pai ou mãe de primeira viagem, sabe do que estou falando;  ou aquele (a) que aguardou  o regresso de um amor, de um filho, parente ou amigo, nas alas de desembarque de aeroportos e rodoviárias. É alta ansiedade ao cubo. Uma euforia incontida, até explodir em sorrisos e muitas vezes em lágrimas de felicidade.
A segunda, a partida, a ida, é dolorosa. Ensejando dúvidas quanto ao regresso, o tempo que não vai passar tão rápido quanto desejado ou planejado; mesmo que saibamos que tudo é uma questão de adaptação daqueles que aqui ficaram, e dos que partiram para novas conquistas, em busca de novos rumos, novos horizontes para a vida; novo trabalho, negócios, turismo, estudos, e até mesmo arriscando-se no incerto, na duvidosa alça da ilusão de terras estrangeiras.
Mas, a partida antes do combinado, é ainda mais surpreendente, triste, avassaladora, chocante,
irremediavelmente danosa aos nossos mais profundos e solitários sentimentos.
Perder um ente querido, um amor, um filho, colega, amigo, chapa, um mano, brother, parceiro,
sem aviso-prévio, é sacanagem.
Estivemos juntos recentemente, conversamos, bebemos, tricotamos, fofocamos, trocamos receitas, mensagens, bebemos uma, falamos mal da vida alheia, dos políticos, troçamos sobre os resultados do futebol, etc...  - É assim que reagimos quando recebemos a notícia da morte/passagem de alguém querido.
Buscamos, conscientes ou inconscientemente, nessas reações, uma muleta, um suporte, um anteparo para tentar traze-los de volta à vida, resgatar os bons momentos de convivência que tivemos juntos.
Infelizmente, a cota foi preenchida, a missão chega ao fim, termina, se encerra, se finda, até mesmo pode ser que tenha sido antecipada, mas não sabemos com certeza. E a nossa única
certeza na vida, é a morte.
Ir, sem estar rodeado daqueles a quem amamos, daquela(e) a quem devotamos amor, compartilhamos horas, dias e anos, não está no script. Morrer só, consigo mesmo, é de doer.
Boa viagem Flávio Guerra !!




 

sexta-feira, 6 de junho de 2014

" A LENDA DA PEQUENA GUERREIRA - PARA FILHOS E PAIS "

O formato do rosto, era tal e qual, o de boneca de argila, olhos vivos, boca pequena, lábios proeminentes e grossos, os cabelos ora eram cacheados, ora cortados à altura dos ombros, pouco acima,   pouco abaixo. Perninhas torneadas, mãos sempre escondidas nas costas. Os pés pequenos, completava sua delicada silhueta.
Vivia rodeada de amiguinhos, todos a amavam. Simpática, solícita e  solidária; era  uma menina muito carinhosa. Tratava a todos com palavras meigas, e sempre com carinho, um brilho nos olhos e um lindo sorriso estampado na boca. Pela vida foi assim.
Cresceu, tornou-se adulta, levou para a vida o que sempre fora desde da infância na sua pequena
aldeia. Sempre cercada por crianças, a quais devotava imenso amor e respeito, foi ensinar-lhes  o que aprendeu com os anciãos, seus grandes mestres. Passando às crianças, os segredos da grande
floresta, das curvas dos rios, a entender os cantos, assobios e alaridos dos pássaros e animais, da caça, da pesca, do artesanato, a respeitarem o sol, a lua, a chuva com seus raios e trovões e tudo que o Grande Pai criou.
Seus dias passavam numa felicidade só. Até que um dia, um guerreiro de nome Malcumé, de uma aldeia vizinha, começou a frequentar a mesma oca onde pequenos de sua aldeia conviviam. Era preguiçoso, não tinha vontade de aprender, respondão, mal criado, era uma influência negativa para os pequenos. Certo dia, a pequena-grande-mestra Naniara, descobriu que o feioso guerreiro, distribuía entre alguns dos pequenos aprendizes, uma cuia com o caldo de um cipó proibido. Os aprendizes ficavam indolentes, lentos no aprendizado, e sem vontade de comer. Preocupada com a sorte dos pequenos, Naniara  foi ter com o cacique da aldeia; contou-lhe tudo o que vinha acontecendo. O grande chefe decidiu  expulsar Malcumé da aldeia. Assim foi feito.
Malcumé, sentiu-se ofendido, jurou vingança.
Escondido na floresta, fazia grunhidos imitando onças e outros animais ferozes, para assustar
a pequena-grande-mestra; espalhou entre os quatro ventos que tiraria a vida de Naniara. Seus dias tornaram-se um pouco tristes, seu sorriso era raro, seu olhar  havia ficado opaco.
Vendo seu sofrimento e sua dor, por não mais poder ensinar como antes, O grande Pai, condoído, enviou uma grande tempestade, com muitos raios e trovões. Todos os habitantes das aldeias, ensimesmados e temerosos com a fúria  das chuvas, e sem entender a ira de seu deus, prostraram-se em sua ocas, e de lá não saíram.
Ouviam-se gritos durante a tempestade, eram gritos de desafio. Poucos se atreveram a pôr a cabeça para fora, mas os que se atreveram viram que no alto de uma colina, um clarão alumiava a noite chuvosa, além dos raios e  trovões. Era Malcumé, erguendo e descendo seu facão, na tentativa infrutífera de cortar o espaço, a chuva e maldizendo o Grande-Pai,  foi quando ouviu-se
um grande troar, um facho de luz azul riscou o espaço, cortou o céu, e iluminou toda a floresta,
a chuva parou, e um grande raio desceu sobre Malcumé. Como chegou se foi.
A noite se fez dia, o sol voltou a brilhar, os pássaros gorjeavam, a floresta ficou ainda mais encantada. Naniara, voltou a sorrir, seus olhos antes marejados, tornou a brilhar.
De Malcumé não se tem notícias.
 

 

 



terça-feira, 27 de maio de 2014

" DA TEORIA À PRÁTICA : O homem ideal sob a ótica das mulheres "

O planeta terra, é indiscutivelmente das mulheres; são a maioria da população, ativa e inativa. Estão nas mais diversas e distintas áreas do mercado do trabalho, atuando e exercendo funções de destaque em condições semelhantes à dos homens, porém, ainda com salários inferiores. Um ranço antigo, mas ainda vigente em pleno século XXI. Não por isso, que elas deixam de se inserir cada vez mais na sociedade, antes eminentemente masculina, hoje, pouco mais homogeneizada e, menos intolerante. Enfim, a mulher foi à luta e conquistou seu espaço, seu trono. Um salto grandioso, iniciado fortemente no final dos anos 50 do século passado, para se consolidar nos dias atuais. São maioria, nos mais variados segmentos, indo da saúde a educação, nos bancos  escolares, nas universidades, nas grandes empresas, só para ficar por aqui. O espaço é delas.
Hoje, mais bem informadas e formadas, conquistam a sua independência financeira; muitas ainda
tendo o ônus de ser a chefe de família - sem desmerecimento algum - por assumir de vez a responsabilidade de criar, gerir, sustentar os filhos de casamento(s) desfeito(s).
Senhora de si e dos seus quereres, a mulher moderna e antenada com o seu tempo - na faixa dos 25 aos 55 anos, sem querer ser excludente - viaja mais, sai mais, frequenta bares, shows e boates, se diverte mais, se insere mais na sociedade, é mais participativa.
Dentro desse contexto, partindo do princípio de que hoje, a mulher é mais independente financeiramente, ela pode escolher, à ser escolhida. Sem recalques. Porém, com toda essa evolução e conquistas, ela ainda espera pelo seu homem ideal. Não o perfeito, o príncipe encantado, porque esse não existe - segundo as próprias dizem - Entretanto, buscam no homem idealizado, o amor recíproco, o amigo, parceiro, companheiro; um ser carinhoso, gentil, protetor, ouvidor, conhecedor de seus anseios, das razões das suas dores, lágrimas e tristezas. Pacientes nas suas crises de TPM, que saibam compreender esse estágio passageiro, perceber os códigos em seus olhares quando a menstruação se avizinha, e o seu desejo aumenta ou diminui. Almejam, o ser sensível, porém másculo, com uma boa pitada de pegada, olhar atrevido, uma colher de pele de lobo, uma raspa de canalhice, pitadinhas de homem das cavernas (sempre nas horas apropriadas) uma colher de aventura, sabedoria para conhecer, saber explorar e desvendar o terreno. Misturar tudo com cuidado, mexer ora suavemente, ora com força e tenacidade; parando nos momentos certos, continuando até todos os ingredientes se homogeneizarem. Deixar descansar, sem desandar a mistura.
E nessa busca, elas exigem principalmente, que sejam autênticos, sem falsa modéstia, sem meias verdades, que seus sentimentos sejam respeitados. Fidelidade, cumplicidade, e que o sexo seja o complemento, não a razão.
Nem todas se encaixam na descrição acima, mas vou respeitar as diferenças.



terça-feira, 20 de maio de 2014

" A ROCHA, O LIMO E O LIMBO "

Muito de nós se esvai
Se escapa, se vai no tempo...

O que era porto seguro
torna-se pedra
ponta de pedregulho
coberto de limo

Onde não se pode agarrar,
segurar, porque deixamos ir
Sem criar laços, nós, raízes,
nada tão profundo
 
Que venha calar,
deixar um silencio, travar as palavras,
aquietar os sons,
amordaçar os sentimentos,
matar o orgulho
 
Enganar a si
Moldar-se ao cinzel dos ventos
Que sopra, lavrando as rochas,
lavrando as pedras,
lascando pedaços ínfimos...
 
 
 
 
 
 
 
 




segunda-feira, 19 de maio de 2014

" MINHA PRIMEIRA LIÇÃO : A pipa e eu "

Vento pouco, sol miúdo, acanhado, céu azul límpido, nuvens breves e passageiras, formando aqui e acolá, ora figuras de animais, ora chumaços de algodão. As árvores perdendo as folhas, o chão da rua e das calçadas, forradas de folhagens secas que crepitavam quando pisadas. Caminhando sobre esse tapete de folhas mortas, crianças iam e vinham, ás vezes correndo de costas, de um lado para outro, empunhando um carretel de linha, fazendo suas pipas ganharem o céu.
Perto da esquina, um homem segurava  uma pipa, braços esticados, tentando mantê-la acima de sua cabeça, embaraçava-se com a rabiola da pipa, pondo-a ora à sua frente, ora às suas costas. Um menino de uns nove anos, dava-lhe instruções :
- Agora levanta mais ela, pai. Mais alto, mais, assim. Agora não se mexe. Solta, pai, pode soltar !
E o homem obedecendo, soltava a pipa, que insistia em não voar. Repetiram a mesma operação inúmeras vezes; até que a pipa ganhou altura. Era colorida; vermelha, verde e branca. O menino corria pela rua, bochechas vermelhas, cabelos curtos, carinha de satisfação e alegria. A pipa foi ganhando o espaço. Subiu, cortando o céu. A linha fazia uma barriga no ar.
O pai veio caminhando lentamente, se aproximou do menino, pôs seu braço direito sobre o  seu ombro, olhou para o céu, mão esquerda protegendo os olhos, e ficou olhando a pipa fazer manobras no ar. E assim permaneceu por alguns minutos, como que hipnotizado.
Volta-se para o filho e pergunta :
- Já posso empinar, filho ?
E do alto dos seus noves anos, e sem tirar os olhos do céu, sentencia :
- Ainda não. O senhor nem aprendeu direito a segurar a pipa !



quinta-feira, 15 de maio de 2014

" DAS PALAVRAS QUE PODIA TER DITO E CALOU-SE "

Seu maior temor, era sair da vida, sem conhece-la, sem vê-la, sem saber o nada do seu todo. Podia ouvi-la, mas não senti-la, toca-la; cego da imagem física, restava-lhe o consolo das fotografias expostas em telas frias, algumas coloridas, captando seu sorriso de Monalisa. Enigmática, fleumática, uma aura ser desvendada, tida, possuída, compreendida, porém, conservando seus segredos mais íntimos. Quase inexpugnável, inatingível, tal qual o pico mais alto da grande montanha. Assim se travestia, concebeu uma personagem. Sensível, delicada como a mais rara flor. Queria apenas o verdadeiro amor. Não o passageiro, o que agoniza e morre; não amor com dor. Desejava ela, o amor semeado, plantado, com raiz, frutos e flor. Algo colorido, o que arranca sorrisos, risos, suspiros, felicidades, prazer, aroma e sabor.
Dele, o maior temor ainda é cegar-se, sair da vida sem sentir seu respirar, tocar sua pele, seu rosto, saber qual o gosto do beijo que jamais recebeu. E arrependido, por tê-la perdido, procura voltar no tempo, se agarrar no vento que já passou.
A profusa vontade de real de vê-la, é o antídoto à imagem quase holográfica criada em sua mente,
ou nas máquinas insensíveis, que não gravam, não captam os sentimentos, os aromas, os cheiros, perfumes, o toque na pele, a energia, a sinergia que gera, que enlaça, produz, reproduz, conduz os seres a uma dimensão superior.
E assim como a um anjo, ele não a percebeu...perdeu ?

domingo, 11 de maio de 2014

" LEVE "

Descia a rua em movimentos leves
Não ventava
brisa, nenhuma
Parou o tempo
Da primavera ao verão
Quiçá, para não incomodar
o seu passar

Deixando um aroma leve,
um bom perfume no ar

O olhar, um encanto
E assim passou
Foi caminhando leve e solta
Sem se ater, nem fazer conta

Esvoaçando os cabelos
dando ritmo às ancas

Um bailar fortuito
um pisar cadenciado
O sorriso arguto

Mãos regendo uma orquestra imaginária
Compassados passos
Balançando as ancas

Vai e vem cadenciado
Ombros largos
Sorriso estampado no rosto...


sexta-feira, 9 de maio de 2014

" O SEGREDO "

Preparando o jiló, pouco condimento
cozido em água morna,
que deixei descansando por 24 horas
Fazer um gargarejo,
dar ao corpo, um fino traquejo
Enfeita-lo com a melhor vestimenta

Nos pés, um lustroso pisante
No corpo, o melhor perfume,
ficar bonito, ou próximo disso

Caminhar pisando em nuvens,
que é pra onde me leva, a branca Janete
Sacudir a moranga, ouvindo jazz,
bossa-nova,
ou samba de raiz
Sem nem me importar com o que a Dilma diz

Fazer uma prova de amor,
um contrato de fé,
selar com um beijo
Esperar a madrugada passar
O sol raiar, terminar o nosso dia
no Remenber Café

Dizer a ela, que quero dormir e acordar
vendo seu sorriso
E que não prometo os céus
nem o infinito
Mas que vou fazer seus dias, tardes e noites
mais bonitos

E que posso não ser o poeta Vinícius
Mas que letra de samba, poesia e amor,
eu faço e, que é nosso segredo
e não se fala mais nisso






sexta-feira, 2 de maio de 2014

" ENSAIO SOBRE CHINELOS, ARMÁRIOS E COISAS ESQUECIDAS"

Deixei meus chinelos atrás da porta, o blazer de veludo cotêle cinza e a camisa roxa no armário. Não sei se esqueci alguma coisa a mais; mas quem sabe volte outro dia ou uma casualidade, um reencontro furtivo e nada premeditado possa acontecer. Dialogar com as sombras, isso não vai resolver.
De vez em quando, deixo rolar "Esquinas", vou fumando um ou outro cigarro, batendo as cinzas, engolindo um "nacional de boa procedência", rindo sozinho, escrevendo sobre temas do dia a dia,
crônicas da vida. Algumas pontuadas de humor, acidez, crítica mordaz, outras desinteressantes; umas falando de amor e paz, de idas e vindas, encontros, desencontros, reencontro, perdas, mar e terra. A memória ainda funciona, mesmo que às vezes me traia.
As horas vão passando, como um vento de outono, forte, rápido e quando me dou conto, os dias se foram, um após o outro.
"Esquinas" está terminando, vou ouvir Stan Getz, o balanço é outro, ritmo mais lento, suingado, como fazer amor em noite de chuva.
Os chinelos, deixa por aí mesmo, já não vão ser arrastados pela casa.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

" O RIO, A CHUVA E O MAR "

O rio desce caudaloso, ora manso, mudando de cor e temperança, seja em curvas ou retas, chuvas, verões ou invernos, primaveras, ou outonos, por paisagens as mais diversas; nada  impede seu rumo ao encontro com o mar. Não há nada que o represe, ele sempre há de encontrar o seu caminho, criando atalhos, desvios, sempre seguindo seu rumo. A chuva cai do céu, se soma ao volume das águas do rio, crescem juntos,  seguem a viagem, por quilômetros incansáveis.
Finda a viagem, se misturam ao mar, águas e águas. O sol causticante, evapora as águas, que sobem aos céus, se condensam, formam novas nuvens, robustas, desenhando nos céus imagens, que logo se precipitam em forma de chuva, caindo na terra, molhando o solo, escorrendo, e indo ao encontro do rio, para dali um novo recomeço, uma nova viagem.

Dedico essa a uma amiga que tem mar no nome, e que entende que sou como ele; acolho as águas dos rios, das chuvas, das tempestades, e sigo na vida, sigo o curso..

domingo, 23 de março de 2014

" AMAR, A CAIXA DE PANDÔRA, ABERTA E FECHADA"

Amar: é um verbo transitivo direto. De complexa explanação, mas, muito mais por envolver sentidos do que por englobar um único e distinto sentimento. Queiram ou não, amar é uma junção de vontades, de desejos carnais e também materiais; sentimentos de união, apego, posse, físico, até mesmo de paladares. Cheiros, odores, perfumes - que conseguem remeter a um momento especial ou não - que marcam, ferem, fazem doer, deixam feridas abertas, se fecham, cicatrizam, passam, se vão, mas que porém pululam o inconsciente, alertando, remetendo vez ou outra, ao passado longínquo, até mesmo o mais  recente; indo e vindo. Perdas e danos !
Alguns dizem não amar, se furtam ao prazer do amar, do doar sua parcela, contentam-se em apenas receber egoisticamente - talvez por ter amado demais em algum tempo ido - e pensa ter exaurido a fórmula do amor que ainda têm para dar. Uns, apenas substituem ou trocam a(s) personagem(ns), doando seu amor a um determinado núcleo, plantas, livros, labor, animais, coisas, etc. em detrimento à sua vida privada, ao seu ser.
Que medo é esse ? Não crê mais? perdeu a confiança em si, ou a dúvida atroz, te afasta?
Poeticamente amo, intensamente amo, por segundos, minutos, horas, dias, meses, anos, distintamente de núcleos; separando os joio e os trigos, as rebarbas, as ferpas e, sem medos, sem receios, com ou sem apelos, perdas ou ganhos, como os dedos das mãos, cada um no seu tamanho e importância. 
Amar, faz bem para a pele, para os músculos, para os ossos, para o corpo e a mente.
Queremos ouvir : eu te amo, dizer, escrever em papel, em espelho com batom, na pele com nanquim, em gestos, em palavras, mesmo que mudas, mas que sejam compreendidas, percebidas, palpáveis, impronunciáveis, mas perceptíveis. Deixar claro o desamor, afoga, sufoca, desperdiça, perde, esvai, parte, vai embora, some, apaga, ficam apenas as vagas boas e más lembranças.
Seja intenso(a), seja todo(a), entre de cabeça, ou não, no jogo do amor, é perder e ganhar. Garantias? 50%  é não, e já está garantido.
Ame. Que seja por segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses...

sexta-feira, 21 de março de 2014

" TEMPESTADES DE UM BREVE OUTONO "

Dizem uns, que o vento veio do sul, outros, os mais antigos, a noroeste. O sol era causticante, queimando o corpo, ardia como brasa; a ventania fez subir partículas de areia de praia, que batia no corpo como chicote, olhos, pele do rosto, braços e pernas, eram castigados com os golpes da areia trazida pelo vento. O céu acinzentou-se, as nuvens ficaram entumecidas, robustas; deslocando-se com rapidez, para depois cair em forma de tempestade. Forte, caudalosa, impondo medo, mas depois amainou-se, acalmou-se, refrescando o final de tarde.
O que estava escrito nas areias, pelos enamorados, o vento apagou. Os anéis, os cordões de ouro, prata e latão, o mar trouxe de volta; deixou-os na areia molhada pela chuva.
O outono chegou, as chuvas vão fechando um ciclo iniciado no verão. Agora são as folhas que caem, desnudando as árvores, expondo seus ramos, galhos retorcidos, troncos marcados por rugas, fincando frestas,  marcando o tempo, que passa inexorável.
Novas folhas, novos ramos, novos galhos, novos frutos, renovando a beleza da nossa árvore da vida. Que as dores, as lágrimas, as despedidas, os sonhos desfeitos, o amor perdido, sejam todos como as palavras escritas nas areias das praias : Breve e passageiros, que o vento os leve.
Bem vindo outono !


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

" MENINAS E MENINOS, EM EBOLIÇÃO "

Auto sustentável, au-to  sus-ten-tá-vel ! Me enrolo pra pronunciar essa palavra, é quase um trava língua. Auto sustentabilidade, auto suficiência, andam muito em moda, assim como o "zona de conforto", tudo em nome da preservação ambiental ou do lugar comum - quando não se acha respostas para algumas questões.
E essa tal de auto sustentabilidade e auto suficiência, também são motes para as inter-relações pessoais. É sério, não é brincadeira, não ! Vida toma rumos numa velocidade  tamanha que me surpreende. Parece-me que a sociedade se dividiu em duas castas, os homens e as mulheres. Daí vocês vão responder que desde a criação, sempre foi assim. Eles de um lado, elas do outro. Concordo. Mas hoje, isso é via de regra, eles estagnados, sem evoluir no sentido de ter uma relação mais duradoura, perene, ou vão em busca do aspecto físico, da beleza plástica, da vaidade, onde o que conta é a apenas o alívio do prazer físico e passageiro sem aprofundamento, e vice-versa.
Enquanto as mulheres vão trilhando o caminho que os homens abandonaram há 30 anos atrás, ou seja, investindo em si, estudando, se inserindo no mercado de trabalho, se capacitando cada vez mais, alcançando a sua independência não só financeira, mas social e pessoal. De meras espectadoras, tornaram-se a personagem principal.
Hoje as mulheres deram um passinho á frente dos homens; pois numa sociedade moderna como a que vivemos, competitiva, excessivamente consumista, elas são o Ás do baralho.
Mas tudo isso, toda essa evolução, deixou tanto um, quanto o outro, mais egoístas, um tiquinho individualistas. Como se fossem adversários, ou apenas mantenedores de uma parceira com tempo pré-determinado para acabar, as relações não se aprofundam. Muito mais pelas regras que cada um se impõe, tais como liberdade de ir e vir, de escolhas, de estilo de vida; enfim, cada um quer apenas viver aquilo que buscou, que amealhou, que conquistou, que o fruto do árduo trabalho lhe proporcionou, "sem estresse" ! 
Nossa sociedade se americanizou.
Ou se enquadra, ou será enquadrado, ele e ela !
I can get no, satisfacion !!!

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

" MUITO PRAZER, MEU NOME É ZÉ...."

Vestia preto, calça, camisa, blazer; sapatos também pretos, reluzentes, caprichosamente
engraxados. Mesmo com a noite caindo, os óculos, de lentes e armação pretas, lhe escondiam os olhos. Cobrindo sua cabeça, um autêntico chapéu Panamá, palha fina. Na lapela, um cravo vermelho. Descia a ladeira como que dançando, gingando o corpo, como se fora a qualquer hora aplicar um golpe de capoeira no ar, os braços longos como os de um mestre sala. Na mão direita, um anel grosso de ouro, e uma pedra de rubi encravada. Na esquerda, um anel de ouro branco, cravejado de esmeraldas, encimado por duas letras estilizadas, onde se lia : BG - Bacharel de gafieira.
Noite escura, apenas a luz da lua iluminava aquela figura negra e esguia. Semblante sério, altivo, caminhava sem pressa; os cães da rua, calaram, cabisbaixos como se prestassem reverência. Silêncio na noite.
De frente ao número 107 da rua dos Lírios, ele para. Casa simples, mas de bom acabamento. Luz fraca do alpendre acesa. Bate palmas firmemente. Barulho de fechadura; aos poucos as porta vai sendo aberta. De dentro, uma voz  pequena e masculina, pergunta quem é.
A voz grossa feito uma troada de trovão, provoca arrepios no gato cinzento que dormitava na soleira da porta.
- Quero ter com Benício Santos, é ele ?
- Sim, é .
Entre surpreso e amedrontado, um homem de estatura mediana, sem camisa, vestindo calça marrom,  cinto carcomido afivelado na cintura, e um par de tamancos lhe calçando os pés, caminha até o portão, fazendo tóc, tóc, tóc, a cada passo que dava. Vislumbra a figura do homem negro, de quase 2 metros, todo vestido de preto. Treme-se todo.
- Meu nome é José Pilintra, mas pode me chamar de "Seo" Zé Pilintra. Venho para lhe dar um aviso - sua voz era firme e forte - se tornares a fazer sofrer  mal tratos, tua mulher e filhos, darei fim aos teus dias na terra. O homenzinho viu que de dentro da lentes escuras dos óculos, daquele homenzarrão, saíam duas xispas de fogo .
Suas mãos e pernas tremiam como vara verde, a garganta ficou seca, tal qual língua de papagaio, não conseguia emitir uma só palavra, um único som, nem mesmo balbuciou, emudeceu-se. Olhos esbugalhados pelo pavor, suor lhe tomando a face. Só fitava as xispas nos olhos de Seo Zé.
- Entendeu o que eu disse ? E sem nem ao menos esperar a resposta, mandou Benício se retirar.
Os tamancos ficaram pelo quintal. Nem olhou para trás.
Manhã seguinte. Ao sair para mais um dia de labuta, Benício se depara com um cravo vermelho pendurado no portão. Não era um sonho.
Hoje frequenta a igreja, dá banho nos cachorros, leva as crianças na escola, ajuda a esposa a preparar a janta. Nunca mais bebeu.


SALIM SLAVINSCKI: " MEMÓRIAS DE UM SONHADOR "

SALIM SLAVINSCKI: " MEMÓRIAS DE UM SONHADOR ": Acomodou-se na cadeira de praia, bebeu um gole de café, acendeu um cigarro, olhar perdido no céu, como quem procura estrelas distantes. Vent...

SALIM SLAVINSCKI: " MEMÓRIAS DE UM SONHADOR "

SALIM SLAVINSCKI: " MEMÓRIAS DE UM SONHADOR ": Acomodou-se na cadeira de praia, bebeu um gole de café, acendeu um cigarro, olhar perdido no céu, como quem procura estrelas distantes. Vent...

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

" TRÁZ MAIS UM BLACK E A CONTA "

O dia nascera nublado, abafado, modorrento; prenúncio de chuva.
O coletivo seguia comendo asfalto, lenta e vagarosamente, trânsito caótico na cidade que se acha o umbigo do mundo. Passando pela avenida da praia, seus prédios ora modernosos, ora perdidos nas décadas de 40 e 50, agora ruas estreitas,  depois canais poluídos dividindo as avenidas. O céu parece querer desabar. A ansiedade é grande. Confere as horas, liga mais uma vez, e avisa que poderá vir uma grande chuvarada. Ponto final. Percebe que pegou o ônibus errado. Atravessa a rua, e embarca no Circular 61 - Porto - Terminal de passageiros. No caminho vai pensando, no que poderia ter dado certo, que caminho tomar, no que fazer desse dia em diante. Incertezas. Incerto também era o reencontro. Sem saber onde seria o embarque dos passageiros, liga novamente, mais dúvidas e incertezas; ligação falhando, bateria sem carga. Finalmente o encontro/despedida. Vindo mansamente, o mesmo andar, o mesmo sorriso, o beijo bom, poucas palavras. Cada um segue seu caminho. Um embarca e viaja, o outro desembarca no cotidiano.
O itinerário mudou, o calor abafado não. O céu resolveu abrir suas torneiras. A chuva é fina, os passageiros outros, o odor das ruas e do caís impregnam as narinas. A zona portuária pouco mudou, o comércio do prazer ainda está por lá, bares pé sujo, música alta. O tempo não passa, os minutos são séculos. O dias não passam, morosos, demora a anoitecer.
Talvez tenha sido tudo moroso, como uma nau que singra o mar levando turistas em veraneio.
Idas e vindas, sem um rumo certo, sem um norte definido, sem proa, nem popa.
Um chopp black, copo suado, liquido bem gelado !

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

" UM DIA PARA SER ESQUECIDO " ( Caiu a rede )

A modernidade e a tecnologia são irmãs siamesas, andam juntas, ou quase. Em dias de chuva, quem quiser fazer uso de um celular "modernoso" - desses que só falta avisar para nós, que o saldo bancário está no vermelho - não consegue, "cai a rede", não se fala com ninguém, ninguém nos ouve, e o aparelho só chia feito panela de pressão. Enfim, lastimável !
Ontem, 11/12/13, quem foi ás compras, ou tentou fazer um saque nos bancos, caixas eletrônicos, pagar contas, receber um cobre, abastecer o veículo, comprar fraldas para o bebê, não conseguiu, a "rede" caiu, e com ela tudo o que se refere a cartões de crédito e bancários. Nada funcionou, o comércio ficou paralisado, não recebia nenhum pagamento efetuado com cartões, só em dinheiro vivinho. E hoje em dia, quem é que não possui um cartãozinho ? Pois é, estamos escravizados pela modernidade e comodidade dos cartões de plástico. Mas quando dá uma pane no "sistema", é um Deus nos acuda.
Querendo ou não, os cartões são os facilitadores do consumismo desenfreado ao qual nos submetemos, isso quando temos cacife para bancar aquilo que projetamos como sonho de consumo. Entretanto, o caos se instalou, quando o maldito sistema ruiu. Sonhos desfeitos ou adiados, paciência e tolerância zerados, calor, tensão, bafo na nuca, sovacos fétidos na cara, bafo de onça, filas intermináveis, crianças perdidas dos pais, e o "sistema fora do ar". Volta para casa; tentativa infrutífera de enviar um e-mail e, efetuar uma simples ligação telefônica. Aff... esse dia foi o Ó, o buraco da bala, o borogodó, as tranças de um rei careca !
É muito telefone vendido, e pouca rede.
Oi, tá vivo, tá claro? Tim tim, para nós !

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

" O ATIVISTA, E O BICHO SOLTO "

Alex, era um menino sensível, filho de pais separados, criado pela avó materna, morava num casarão no Brooklin, bairro classe média alta de São Paulo. Era o príncipe da casa; na infância teve todos os brinquedos que uma criança desejava. Adorava bichos. Tinha passarinhos, ramister, coelhos, cães, gatos, tartarugas, todos livres e soltos pelo quintal, e nas árvores do pomar; também tinha um aquário enorme com peixes multi coloridos, na sala da casa. Gostava de ler, era estudioso, educado e cortês. Brincava só. Tinha poucos amiguinhos. Não empinava pipas, brincar de pique-esconde nem pensar. Detestava suar, ou se sujar .
Cresceu, e já na adolescência, uns amigos do cursinho o convidaram a ir numa manifestação de caras pintadas, contra o presidente Collor de Melo. Seria na Av. Paulista. Recusou. Pensou até em ir, mas quem cuidaria de seus bichos de estimação ? Não foi.
O tempo passou. Formou-se em Veterinária, era dedicado. Seu pai montou uma clinica e um pet-shop, no mesmo bairro onde morava, sua clientela era formada pela elite do lugar e adjacências. Pertencia à sociedade protetora dos animais, onde era vice-presidente da entidade. Lutava pelos direitos dos animais.
Solteiro convicto, herdara da avó materna, a paixão pelo Corinthians, não perdia um jogo, sendo no estádio ou pela TV, pelo chá com biscoitos e pela cerveja quente. Amava dançar nas baladas ao som de Gloria Gaynor, e seu hit I Will surviver. E foi na saída dessa balada, que um grupo de amigos ativistas, o convidaram para invadir um laboratório numa cidade do interior, próxima a capital. Queriam libertar cãezinhos beagles, que segundo informações, estariam sendo usados como cobaias em experiências científicas. Aceitou de pronto.
Invadiram o tal laboratório, resgataram os animais, quebraram alguns  móveis das salas laboratoriais, equipamentos da empresa. Enfrentaram a polícia, a imprensa. Deu um quiprocó danado.
Foi nesse mesmo dia, que ele conheceu Eliseu Pinto, foi amor a primeira vista. Comemoraram juntos a libertação dos cãezinhos, e sua saída do armário, Como dizem os entendidos : soltou a franga !
Hoje vivem ele, Eliseu Pinto, dois beagles, um poodle, papagaios, peixinhos, e outros bichos, no velho casarão do Brooklin. A festa do casório vai ser temática, tudo nas cores, e referências do seu time do coração.
Uiiiii...o amor é lindo !

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

" O BODE DA DISCÓRDIA "

Zelão, é um cara safo;  exerce,  dentre muitas profissões, a de ferreiro; confecciona não só ferraduras, mas tudo o que se relacionar a cavalos. Doma  o animal com maestria, entende a psicologia do bicho. Usa também seus dotes de marceneiro e carpinteiro para construir charretes, carroças, veículos de tração animal, quase muito pouco vistos transitando pelas vias das cidades. Confeiteiro de mão cheia, faz bolos, doces e até salgados, que vende à domicílio. Nas horas vagas, usa seu outro dote, outro dom; o de entalhador. Faz arte em pedaços e troncos de madeira, sejam nobres ou não. Da forma e graça aos rostos entalhados, pura arte. Expõe em feiras e praças, vende sua arte. E como ele mesmo diz : Não sou eu quem as faz, fico apenas atrás da ferramenta, a peça é quem me impulsiona !
Há alguns anos atrás, morava numa comunidade barra-pesadíssima de uma cidade litorânea. Tinha uma gleba de terra, onde ergueu um chalé de madeira, para morar com a família. Ao lado da humilde moradia, funcionava a sua ferraria, Nos fundos, criava aves, porcos, bodes e cabras; e uma pequena horta, muito bem cuidada.
Na ferraria, juntava-se, toda a fauna da malandragem, além charreteiros, carroceiros, cavalariços, e curiosos. Bem falante, fazia amizade com todos que se aproximassem para um dedo de prosa. Numa ocasião, adentra à sua ferraria, um cidadão, velho conhecido seu, acompanhado de um homem alto, forte, aloirado, com um turbante branco enfeitando parte de sua cabeça; trajado de vestes africanas, colares, cordões coloridos e penduricalhos, enfeitando o pescoço até a altura do umbigo. Foi-lhe apresentado pelo velho conhecido como Pai Loló d'Angola, babalorixá de terreiro e de casa santeira. Rosto expressivo, meio bonachão, efeminado nos gestos, e nos dizeres. Foi logo perguntando se Zelão era o engenheiro de obras prontas. Todos riram, inclusive o próprio ferreiro.
Passada a galhofa, dizia estar ali em missão espiritual, pois seu amigo lhe havia dito e garantido, que só ele, Zelão, o ferreiro, poderia resolver  sua situação. Porque necessitava de um bode preto, mas preto mesmo, para oferecer a uma das suas divindades. E que o estava cobrando, a oferenda.
O mestre ferreiro, o olhou de cima a baixo com seus olhos pequenos e castanhos claros, como a medir e a absorver cada palavra do "Baba". Ficou em silêncio por alguns segundos e devolveu.
- O bicho eu tenho, mas está apartado, pois está no cio, e quer cruzar com as bichinhas, Por isso não posso, lhe servir agora. E no momento, não me interessa vende-lo.
O rosto do babalorixá, se iluminou, seu largo sorriso, resplandeceu. Batia palminhas, excitado com a possibilidade de poder saldar sua divida. Queria ver o bode de qualquer jeito. Vontade que não lhe foi concedida. Pelo já exposto, bicho apartado, etc e tal. E bota preço, e arreda preço, finalmente foi acertada a venda.
Mesmo sem nem ter visto o bicho, fechou a compra. Preço acertado, bigode no laço. Se foi, com a data do regresso já combinado, para dali três dias. O dia passou sem mais novidades. Encerrado o expediente na ferraria, o nobre artista, vai cuidar de seus animais.
Na data combinada, o babalalorixá chega em uma vistosa caminhonete e mais dois homens, também trajados em panos afros, deviam ser do seu abai tolá. Breve saudação, descem para apanhar o bode. Negro como pedra de carvão, pelo lustroso, manso, puxado por uma pequena corda por um dos homens. Lá se foi, seguiu o seu destino com seu novo dono.
Passadas algumas horas, um carroceiro em visita à ferraria, pergunta a Zelão, se não era o bode Manchinha, aquele que ele vira, na carroceria de uma camionete. Positiva a resposta, acrescenta ainda : - vendi bem, bom preço, cinco vezes mais do que valeria, senão tivesse eu, tingindo a manchinha da cabeça dele, com tinta preta para cabelos.
" Se o caminho é meu..."




quinta-feira, 29 de agosto de 2013

"CARTAS ESCRITAS, MAS QUE NUNCA CHEGARAM AO DESTINO"

Meninas ainda, algumas no corpo, outras nos modos, nos gestos, nos sonhos, na esperança. Deixam tudo para trás, infância, família, filhos, vida. Peregrinam por portos e cidades, noites, madrugadas; do luxo ao efêmero, da fartura à miséria interior.
Infância roubada, dignidade aviltada, sodomizadas por pais, tios, irmãos, padrastos, até mesmo pelas mães. Jogadas às ruas como algo descartável, á própria sorte. Nas ruas vendem o corpo, a alma, o espírito, por um lugar para dormir, um prato de comida, por um abrigo onde possam se esconder de si mesmas, de suas histórias, de suas frustrações.
Álcool e drogas, aliviando a dor que não se apaga, a ferida que não se cura, aberta, rasgada; cicatriz na carne, no âmago, no corpo.
Deitam-se como qualquer um, fingem prazer, mentem, enganam, e se enganam. Muitas querem lavar seus corpos e mentes. Lavar do corpo o cheiro, o fedor, de seu agressor. Aquele que roubou sua inocência, sua pureza infantil, sua meninice. Quantas dessas meninas/mulheres, não querem morrer cada dia que acordam ?
Atravessam mares, oceanos de sonhos, para venderem seus serviços no velhos continente, esperando  ali encontrar, o mesmo príncipe que vai lhe resgatar, como sonhara quando criança. Mas o sonho acaba nos bordéis de luxo, ou de terceira, nas boates  e inferninhos, escravizadas, violentadas e viciadas.
Para bem poucas, a sorte bafeja, casam-se, e enterram a sua personagem. Mas a cicatriz está ali, latente, doente, doída, doente.
Meretriz, puta, biscate, prostituta, garota de programa, rameira, são tantos os adjetivos (des)qualificativos, porém, por trás de cada um deles, existe antes, uma criança, uma menina, uma moça, uma mulher, com os mesmos sonhos que qualquer outra sonha, com as mesmas vaidades, vontades, desejos, projetos, coragem e medo.
O sonho não se acaba, definha.




 

domingo, 4 de agosto de 2013

" MORRI, E EU ESTAVA LÁ ! "

Não sei muito bem como aconteceu, mas estava lá, não sei o dia, ano, nem muito menos como, ou onde. Gente a dar com pau. Homens, mulheres, jovens, crianças, idosos. Amigos, parentes, conhecidos, outros nem tanto. Mas eu estava lá.
Chororô, orações discretas, conversas, risos, gargalhas, "causos", anedotas; uns relembravam algumas das minhas aventuras, desventuras, as várias fases da minha louca vida.
Num canto ou em outro, uns falavam bem, outros desciam a lenha, destilavam pilhérias, mas na verdade era só inveja. Quantos desses não haveriam querer viver tudo que vivi. Os lugares por onde andei, viajei, estive, morei. Alguns até diziam que eu tinha sido um perdedor. Eu estava lá...
Ao fundo, num jardim de inverno, improvisaram um pagode. Sambas que eu gostava, de gente da velha e da nova safra. Aos poucos foi  juntando gente, à medida que o tempo passava, crescia o número de visitantes. Fila para condolências, abraços, afagos, tapinhas nas costas, dos meus filhos, netos, irmãos, cunhados e sobrinhos, até de primos. Minha velha mãe, estava passada, numa cadeira assentada, meio que perdida, aturdida, sem entender ainda nada. Efeito dos calmantes, na certa.
As ex-esposas, iam chegando; rostos inchados, não sei se de risos, causadas pela alegria da minha partida, ou de choro chorado, das boas lembranças vividas, divididas, dos tempos já distantes. Mal se olhavam. Chegavam também as ex- noivas, namoradas, amantes, os "casos". Se aproximavam do caixão, umas oravam, outras faziam o sinal da cruz em respeito ao defunto - que era eu - algumas vertiam lágrimas sinceras, outras vieram só para ver se era verdade mesmo. Um abraço aqui, um aperto de mão ali, nos amigos, na parentada enlutada,  iam se postando e se juntando aos demais. E eu estava ali.
Risadaria no salão ao lado, logo contida por um psiu, olha respeito. O cheiro do marafo, impregnava o ar, tequila, uísque, cerveja e rum, servidos na mesma bandeja do café preto e forte. Era de meu gosto. Não iriam me desapontar.
As horas passavam. O sol pregado no céu, nuvens desenhando figuras, calorão, do jeito que eu gostava. Passarinhos livres e soltos na natureza, gorjeavam, cantos que até aquele fatídico dia, jamais soube identificar a raça. Tudo parecia conspirar a meu favor.
Coroas e mais coroas de flores, de amigos, conhecidos, parentes e desafetos, sempre gostei de flores, não seria agora que iria mudar.
Suando em bicas, entra o padre, todo aprumado em seus quase 90 anos. Meu pai de santo; um amigo muçulmano, convidou um mulá para participar da missa de corpo presente, também vieram um rabino, um pastor e um guru. Sempre defendi e união das religiões, um culto ecumênico seria o mais acertado.
Aos poucos, o som de um samba foi invadindo o velório. Minha doce e amada esposa, agora viúva, fez um pedido aos músicos que haviam organizado o pagode, para  que tocassem Timoneiro, defendida por Paulinho da Viola :
" Enquanto mais remo, mais rezo, pra nunca mais se acabar, essa viagem que faz o mar em torno do mar. Meu velho um dia falou, com jeito de avisar : Olha ! O  mar não tem cabelos, que  a gente possa agarrar.. Não sou eu quem me navega. quem me navega é o mar...é ele que carrega, como se fosse levar..."
Puta que pariuuuu !! Acordeiiii...era um sonhooo !


domingo, 28 de julho de 2013

" ELAS SABEM O QUE QUEREM, SÓ FAZEM JOGO DE CENA ! "

Elas dizem não querer. Não querem que sejamos melosos, doces demais, pegajosos; nos querem meio azedos,  meio rudes, não querem ouvir te amo a toda hora, mas gostam de sentirem-se amadas. Querem não querendo, desejando não querer. Flores, sorrisos, bilhetinhos, mensagens no espelho embaçado; que liguemos no meio da noite para perguntar como estão, se comeram, se estão com frio ou calor. Querem o amor abrutalhado, pegado, com ou sem dor. Unha na carne, boca sôfrega, mordidas nos lábios, cheiros no pescoço, barriga, virilha e na zona do prazer e do amor. Língua molhada, ponta afiada, percorrendo o corpo suado, molhado, dando prazer, lambendo a flor.
Mulher é bicho esquisito, nos querem proscritos, dependentes, distantes e perto, longe e em lugar incerto; mas na hora do grito, gemido, suspiro, gargalhar e riso, gozo e tremido, somos o bicho mais gostoso, mais cheiroso e mais bonito que Deus inventou !
Oh.. bicho bom que é a mulher !

domingo, 7 de julho de 2013

" O CABRA QUE DIZIA QUE CURAVA GAY "

Às vezes fico ensimesmado, incrédulo, com as certos assuntos que leio, testemunho, vejo na TV, ouço no rádio, ou outras mídias ( palavrinha esquisita essa ), mas se estão lá, é porque alguém as escreveu,  senão presenciou, viu ou testemunhou, correu atrás da informação e a transformou o fato em notícia.
Por esses dias, as notícias mais repercutidas, foram sobre os avanços e retrocessos sobre o tal de plebiscito ( que aqui para nós, simples mortais votantes, não vai resolver xongas nenhuma ), a outra era sobre a Cura Gay, que também mexeu para frente e para trás (sem nenhuma alusão ),
avançou e retrocedeu ( sempre na calada ).
Cura Gay ? - Sempre me pergunto, por quê um nobre deputado perde seu precioso tempo ( o nosso também, incluindo aí nosso precioso dinheiro) a apregoar que vai curar alguém que escolheu ser diferente ? E a resposta vem prontinha na minha mufa ( cabeça ). Lá nos idos dos anos em que se amarrava cachorro com linguiça, dizia o seguinte :
- Quem não tem competência, não se habilita !
E de incompetentes, o senado federal e a câmara de deputados estão cheios. Gentes sem a menor expressão ou importância, não vou generalizar, mas que tem, tem. Passar uma legislatura toda a propagar que vai curar gays, é de uma relevância sem parâmetros. Esse cidadão, além de ser até bem pouco tempo uma incógnita, mais um, no universo de outros palhaços; é preconceituoso, rasteiro, como seus pares, e pelo que sabe dele, usa do nome de Deus, para arrancar dinheiro de humildes seguidores de abraçaram a sua ( dele ) mesma religião ( Fato provado e comprovado ).
Todos temos o direito de ir e vir, fazer nossas escolhas, etc e tal. Não me importo com que  as pessoas façam com seu corpo, com seus gostos, ou com a sua razão de viver. Se gosta de gatinhos, passarinhos, cachorrinhos, pintinhos, de meninos e meninas, de se vestir com folha de bananeira, para mim o que vale é que sejamos felizes.
Agora, fazer de uma religião, motivação para achincalhar quem não professa a mesma fé, é de doer. Vejo nas redes sociais, determinadas facções ( é isso mesmo ) que se dizem cristãs, empunhar estandartes de somente a sua religião é que vai salvar a humanidade. Se esquecem, ou não têm discernimento de que a nossa Carta Magna, nos dá o direito, além de ir e vir, de escolher e de ter uma religião; de professarmos uma fé ou não.
Será que essas pessoas teriam essa mesma liberdade em outros países ?
Será que querem transformar o Brasil em uma Irlanda, ou dividido entre cristãos e não cristãos ?
Penso que Deus e seu filho Jesus, não criaram nenhuma religião, nem muito menos são exclusividade de alguns.
Deixa quem gosta, gostar, e sejamos felizes.
 
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