Vento pouco, sol miúdo, acanhado, céu azul límpido, nuvens breves e passageiras, formando aqui e acolá, ora figuras de animais, ora chumaços de algodão. As árvores perdendo as folhas, o chão da rua e das calçadas, forradas de folhagens secas que crepitavam quando pisadas. Caminhando sobre esse tapete de folhas mortas, crianças iam e vinham, ás vezes correndo de costas, de um lado para outro, empunhando um carretel de linha, fazendo suas pipas ganharem o céu.
Perto da esquina, um homem segurava uma pipa, braços esticados, tentando mantê-la acima de sua cabeça, embaraçava-se com a rabiola da pipa, pondo-a ora à sua frente, ora às suas costas. Um menino de uns nove anos, dava-lhe instruções :
- Agora levanta mais ela, pai. Mais alto, mais, assim. Agora não se mexe. Solta, pai, pode soltar !
E o homem obedecendo, soltava a pipa, que insistia em não voar. Repetiram a mesma operação inúmeras vezes; até que a pipa ganhou altura. Era colorida; vermelha, verde e branca. O menino corria pela rua, bochechas vermelhas, cabelos curtos, carinha de satisfação e alegria. A pipa foi ganhando o espaço. Subiu, cortando o céu. A linha fazia uma barriga no ar.
O pai veio caminhando lentamente, se aproximou do menino, pôs seu braço direito sobre o seu ombro, olhou para o céu, mão esquerda protegendo os olhos, e ficou olhando a pipa fazer manobras no ar. E assim permaneceu por alguns minutos, como que hipnotizado.
Volta-se para o filho e pergunta :
- Já posso empinar, filho ?
E do alto dos seus noves anos, e sem tirar os olhos do céu, sentencia :
- Ainda não. O senhor nem aprendeu direito a segurar a pipa !

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