Auto sustentável, au-to sus-ten-tá-vel ! Me enrolo pra pronunciar essa palavra, é quase um trava língua. Auto sustentabilidade, auto suficiência, andam muito em moda, assim como o "zona de conforto", tudo em nome da preservação ambiental ou do lugar comum - quando não se acha respostas para algumas questões.
E essa tal de auto sustentabilidade e auto suficiência, também são motes para as inter-relações pessoais. É sério, não é brincadeira, não ! Vida toma rumos numa velocidade tamanha que me surpreende. Parece-me que a sociedade se dividiu em duas castas, os homens e as mulheres. Daí vocês vão responder que desde a criação, sempre foi assim. Eles de um lado, elas do outro. Concordo. Mas hoje, isso é via de regra, eles estagnados, sem evoluir no sentido de ter uma relação mais duradoura, perene, ou vão em busca do aspecto físico, da beleza plástica, da vaidade, onde o que conta é a apenas o alívio do prazer físico e passageiro sem aprofundamento, e vice-versa.
Enquanto as mulheres vão trilhando o caminho que os homens abandonaram há 30 anos atrás, ou seja, investindo em si, estudando, se inserindo no mercado de trabalho, se capacitando cada vez mais, alcançando a sua independência não só financeira, mas social e pessoal. De meras espectadoras, tornaram-se a personagem principal.
Hoje as mulheres deram um passinho á frente dos homens; pois numa sociedade moderna como a que vivemos, competitiva, excessivamente consumista, elas são o Ás do baralho.
Mas tudo isso, toda essa evolução, deixou tanto um, quanto o outro, mais egoístas, um tiquinho individualistas. Como se fossem adversários, ou apenas mantenedores de uma parceira com tempo pré-determinado para acabar, as relações não se aprofundam. Muito mais pelas regras que cada um se impõe, tais como liberdade de ir e vir, de escolhas, de estilo de vida; enfim, cada um quer apenas viver aquilo que buscou, que amealhou, que conquistou, que o fruto do árduo trabalho lhe proporcionou, "sem estresse" !
Nossa sociedade se americanizou.
Ou se enquadra, ou será enquadrado, ele e ela !
I can get no, satisfacion !!!
Este blog destina-se a textos e crônicas sobre assuntos relevantes e importantes à vida do cidadão. E tem como princípio levar alegria e reflexão.
sexta-feira, 24 de janeiro de 2014
terça-feira, 21 de janeiro de 2014
" MUITO PRAZER, MEU NOME É ZÉ...."
Vestia preto, calça, camisa, blazer; sapatos também pretos, reluzentes, caprichosamente
engraxados. Mesmo com a noite caindo, os óculos, de lentes e armação pretas, lhe escondiam os olhos. Cobrindo sua cabeça, um autêntico chapéu Panamá, palha fina. Na lapela, um cravo vermelho. Descia a ladeira como que dançando, gingando o corpo, como se fora a qualquer hora aplicar um golpe de capoeira no ar, os braços longos como os de um mestre sala. Na mão direita, um anel grosso de ouro, e uma pedra de rubi encravada. Na esquerda, um anel de ouro branco, cravejado de esmeraldas, encimado por duas letras estilizadas, onde se lia : BG - Bacharel de gafieira.
Noite escura, apenas a luz da lua iluminava aquela figura negra e esguia. Semblante sério, altivo, caminhava sem pressa; os cães da rua, calaram, cabisbaixos como se prestassem reverência. Silêncio na noite.
De frente ao número 107 da rua dos Lírios, ele para. Casa simples, mas de bom acabamento. Luz fraca do alpendre acesa. Bate palmas firmemente. Barulho de fechadura; aos poucos as porta vai sendo aberta. De dentro, uma voz pequena e masculina, pergunta quem é.
A voz grossa feito uma troada de trovão, provoca arrepios no gato cinzento que dormitava na soleira da porta.
- Quero ter com Benício Santos, é ele ?
- Sim, é .
Entre surpreso e amedrontado, um homem de estatura mediana, sem camisa, vestindo calça marrom, cinto carcomido afivelado na cintura, e um par de tamancos lhe calçando os pés, caminha até o portão, fazendo tóc, tóc, tóc, a cada passo que dava. Vislumbra a figura do homem negro, de quase 2 metros, todo vestido de preto. Treme-se todo.
- Meu nome é José Pilintra, mas pode me chamar de "Seo" Zé Pilintra. Venho para lhe dar um aviso - sua voz era firme e forte - se tornares a fazer sofrer mal tratos, tua mulher e filhos, darei fim aos teus dias na terra. O homenzinho viu que de dentro da lentes escuras dos óculos, daquele homenzarrão, saíam duas xispas de fogo .
Suas mãos e pernas tremiam como vara verde, a garganta ficou seca, tal qual língua de papagaio, não conseguia emitir uma só palavra, um único som, nem mesmo balbuciou, emudeceu-se. Olhos esbugalhados pelo pavor, suor lhe tomando a face. Só fitava as xispas nos olhos de Seo Zé.
- Entendeu o que eu disse ? E sem nem ao menos esperar a resposta, mandou Benício se retirar.
Os tamancos ficaram pelo quintal. Nem olhou para trás.
Manhã seguinte. Ao sair para mais um dia de labuta, Benício se depara com um cravo vermelho pendurado no portão. Não era um sonho.
Hoje frequenta a igreja, dá banho nos cachorros, leva as crianças na escola, ajuda a esposa a preparar a janta. Nunca mais bebeu.
engraxados. Mesmo com a noite caindo, os óculos, de lentes e armação pretas, lhe escondiam os olhos. Cobrindo sua cabeça, um autêntico chapéu Panamá, palha fina. Na lapela, um cravo vermelho. Descia a ladeira como que dançando, gingando o corpo, como se fora a qualquer hora aplicar um golpe de capoeira no ar, os braços longos como os de um mestre sala. Na mão direita, um anel grosso de ouro, e uma pedra de rubi encravada. Na esquerda, um anel de ouro branco, cravejado de esmeraldas, encimado por duas letras estilizadas, onde se lia : BG - Bacharel de gafieira.
Noite escura, apenas a luz da lua iluminava aquela figura negra e esguia. Semblante sério, altivo, caminhava sem pressa; os cães da rua, calaram, cabisbaixos como se prestassem reverência. Silêncio na noite.
De frente ao número 107 da rua dos Lírios, ele para. Casa simples, mas de bom acabamento. Luz fraca do alpendre acesa. Bate palmas firmemente. Barulho de fechadura; aos poucos as porta vai sendo aberta. De dentro, uma voz pequena e masculina, pergunta quem é.
A voz grossa feito uma troada de trovão, provoca arrepios no gato cinzento que dormitava na soleira da porta.
- Quero ter com Benício Santos, é ele ?
- Sim, é .
Entre surpreso e amedrontado, um homem de estatura mediana, sem camisa, vestindo calça marrom, cinto carcomido afivelado na cintura, e um par de tamancos lhe calçando os pés, caminha até o portão, fazendo tóc, tóc, tóc, a cada passo que dava. Vislumbra a figura do homem negro, de quase 2 metros, todo vestido de preto. Treme-se todo.
- Meu nome é José Pilintra, mas pode me chamar de "Seo" Zé Pilintra. Venho para lhe dar um aviso - sua voz era firme e forte - se tornares a fazer sofrer mal tratos, tua mulher e filhos, darei fim aos teus dias na terra. O homenzinho viu que de dentro da lentes escuras dos óculos, daquele homenzarrão, saíam duas xispas de fogo .
Suas mãos e pernas tremiam como vara verde, a garganta ficou seca, tal qual língua de papagaio, não conseguia emitir uma só palavra, um único som, nem mesmo balbuciou, emudeceu-se. Olhos esbugalhados pelo pavor, suor lhe tomando a face. Só fitava as xispas nos olhos de Seo Zé.
- Entendeu o que eu disse ? E sem nem ao menos esperar a resposta, mandou Benício se retirar.
Os tamancos ficaram pelo quintal. Nem olhou para trás.
Manhã seguinte. Ao sair para mais um dia de labuta, Benício se depara com um cravo vermelho pendurado no portão. Não era um sonho.
Hoje frequenta a igreja, dá banho nos cachorros, leva as crianças na escola, ajuda a esposa a preparar a janta. Nunca mais bebeu.
SALIM SLAVINSCKI: " MEMÓRIAS DE UM SONHADOR "
SALIM SLAVINSCKI: " MEMÓRIAS DE UM SONHADOR ": Acomodou-se na cadeira de praia, bebeu um gole de café, acendeu um cigarro, olhar perdido no céu, como quem procura estrelas distantes. Vent...
SALIM SLAVINSCKI: " MEMÓRIAS DE UM SONHADOR "
SALIM SLAVINSCKI: " MEMÓRIAS DE UM SONHADOR ": Acomodou-se na cadeira de praia, bebeu um gole de café, acendeu um cigarro, olhar perdido no céu, como quem procura estrelas distantes. Vent...
sexta-feira, 3 de janeiro de 2014
" TRÁZ MAIS UM BLACK E A CONTA "
O dia nascera nublado, abafado, modorrento; prenúncio de chuva.
O coletivo seguia comendo asfalto, lenta e vagarosamente, trânsito caótico na cidade que se acha o umbigo do mundo. Passando pela avenida da praia, seus prédios ora modernosos, ora perdidos nas décadas de 40 e 50, agora ruas estreitas, depois canais poluídos dividindo as avenidas. O céu parece querer desabar. A ansiedade é grande. Confere as horas, liga mais uma vez, e avisa que poderá vir uma grande chuvarada. Ponto final. Percebe que pegou o ônibus errado. Atravessa a rua, e embarca no Circular 61 - Porto - Terminal de passageiros. No caminho vai pensando, no que poderia ter dado certo, que caminho tomar, no que fazer desse dia em diante. Incertezas. Incerto também era o reencontro. Sem saber onde seria o embarque dos passageiros, liga novamente, mais dúvidas e incertezas; ligação falhando, bateria sem carga. Finalmente o encontro/despedida. Vindo mansamente, o mesmo andar, o mesmo sorriso, o beijo bom, poucas palavras. Cada um segue seu caminho. Um embarca e viaja, o outro desembarca no cotidiano.
O itinerário mudou, o calor abafado não. O céu resolveu abrir suas torneiras. A chuva é fina, os passageiros outros, o odor das ruas e do caís impregnam as narinas. A zona portuária pouco mudou, o comércio do prazer ainda está por lá, bares pé sujo, música alta. O tempo não passa, os minutos são séculos. O dias não passam, morosos, demora a anoitecer.
Talvez tenha sido tudo moroso, como uma nau que singra o mar levando turistas em veraneio.
Idas e vindas, sem um rumo certo, sem um norte definido, sem proa, nem popa.
Um chopp black, copo suado, liquido bem gelado !
O coletivo seguia comendo asfalto, lenta e vagarosamente, trânsito caótico na cidade que se acha o umbigo do mundo. Passando pela avenida da praia, seus prédios ora modernosos, ora perdidos nas décadas de 40 e 50, agora ruas estreitas, depois canais poluídos dividindo as avenidas. O céu parece querer desabar. A ansiedade é grande. Confere as horas, liga mais uma vez, e avisa que poderá vir uma grande chuvarada. Ponto final. Percebe que pegou o ônibus errado. Atravessa a rua, e embarca no Circular 61 - Porto - Terminal de passageiros. No caminho vai pensando, no que poderia ter dado certo, que caminho tomar, no que fazer desse dia em diante. Incertezas. Incerto também era o reencontro. Sem saber onde seria o embarque dos passageiros, liga novamente, mais dúvidas e incertezas; ligação falhando, bateria sem carga. Finalmente o encontro/despedida. Vindo mansamente, o mesmo andar, o mesmo sorriso, o beijo bom, poucas palavras. Cada um segue seu caminho. Um embarca e viaja, o outro desembarca no cotidiano.
O itinerário mudou, o calor abafado não. O céu resolveu abrir suas torneiras. A chuva é fina, os passageiros outros, o odor das ruas e do caís impregnam as narinas. A zona portuária pouco mudou, o comércio do prazer ainda está por lá, bares pé sujo, música alta. O tempo não passa, os minutos são séculos. O dias não passam, morosos, demora a anoitecer.
Talvez tenha sido tudo moroso, como uma nau que singra o mar levando turistas em veraneio.
Idas e vindas, sem um rumo certo, sem um norte definido, sem proa, nem popa.
Um chopp black, copo suado, liquido bem gelado !
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