1968 o ano que não acabou - O Judas de um outro tempo.
Não tínhamos uma idéia concreta sobre o Sábado de Aleluia, só sabíamos que Judas havia traído Jesus.
Um trazia uma calça velha, o outro uma camisa, o sapateiro doava um calçado velho, o quintandeiro e o feirante, as palhas para o enchimento do corpo. A mãe do Zé Arnaldo, o Naldo, confeccionava a cabeça do boneco, uma velha gandola militar, seria parte do uniforme do nosso Judas, o tio do Nene, dou um bibico, cobertura para cabeça dos soldados. Medalhas de lata, ornamentava o nosso Judas General.
Era uma festa, a molecada se esmerava na feitura do boneco.
Boneco pronto, amarrado no poste do cruzamento da Rua Batista Pereira com Rua João Guerra, uma corda no pescoço o enforcava, ficava assim exposto até as 11:00 hs da manhã do sábado.
A criançada chegava em levas, pedaços de pau nas mãos, e uma sede enorme de fazer justiça. Eram em torno de sessenta crianças, adolescentes e alguns adultos já encharcados de Yaúca.
Aos poucos, o Jair, tio do Miltinho, soltava a corda que prendia o corpo do nosso Judas, criando uma certa tensão e expectativa.
O boneco desceu às 11 em ponto. O pau comeu, arrastado e malhado pela rua João Guerra, correria, gritos, vaias, e uma ou outra: Abaixo a ditadura.
Era só palha e roupas rasgadas, destroçadas pela horda justiceira.
Jesus e o povo, estavam vingados!
Salim Slavinscki
26/03/2016
