sábado, 26 de março de 2016

1968 O ano que não acabou - O Judas de um outro tempo

1968  o ano que não acabou  - O Judas de um outro tempo.

Não tínhamos uma idéia concreta sobre o Sábado de Aleluia,  só sabíamos que Judas havia traído Jesus.
Um trazia uma calça velha, o outro uma camisa,  o sapateiro doava um calçado velho, o quintandeiro e o feirante,  as palhas para o enchimento do corpo. A mãe do Zé Arnaldo,  o Naldo,  confeccionava a cabeça do boneco,  uma velha gandola militar, seria parte do uniforme do nosso Judas,  o tio do Nene,  dou um bibico,  cobertura para cabeça dos soldados. Medalhas de lata, ornamentava o nosso Judas General.
Era uma festa, a molecada se esmerava na feitura do boneco.
Boneco pronto,  amarrado no poste do cruzamento da Rua Batista Pereira com Rua João Guerra, uma corda no pescoço o enforcava,  ficava assim exposto até as 11:00 hs da manhã do sábado.
A criançada chegava em levas,  pedaços de pau nas mãos,  e uma sede enorme de fazer justiça. Eram em torno de sessenta crianças, adolescentes e alguns adultos já encharcados de Yaúca.
Aos poucos,  o Jair,  tio do Miltinho,  soltava a corda que prendia o corpo do nosso Judas,  criando uma certa tensão e expectativa.
O boneco desceu às 11 em ponto.  O pau comeu,  arrastado e malhado pela rua João Guerra, correria,  gritos,  vaias,  e uma ou outra: Abaixo a ditadura.
Era só palha e roupas rasgadas, destroçadas pela horda justiceira.
Jesus e o povo,  estavam vingados!

Salim Slavinscki
26/03/2016

quinta-feira, 24 de março de 2016

"O PATRÃO NOSSO DE CADA DIA, NO FIM DO DIA"

Uma xícara de café quente, recém passado; levado na cama,  ou à mesa, balcão de bar, padaria, no canto da sala de trabalho, sorvido aos poucos, pequenos goles, olhando pro nada; somente pensando no que poderia fazer com seu tempo. Divagações, suspiros profundos, a xícara posta de volta à mesa,  balcão, mesinha ou o copo plástico descartado no lixo do escritório.
Voltar à realidade,  encarar o fato de que mesmas responsabilidades,  tem o patrão. A diferença está em quem manda.
Sonhar não paga nada,  nem o cafezinho.

"O patrão nosso de cada dia,  no fim do dia"

Salim Slavinscki, março 2016

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