domingo, 27 de julho de 2014

"A MORTE, E A QUASE MORTE DA SENHORA CONFIANÇA"

Não nasce por si só, necessário se faz saber escolher o terreno, arar a terra conquistada na labuta, prepara-la, aduba-la, trabalhar arduamente, entregar-se totalmente; saber interpretar os sinais do tempo para poder semear. Semeado o campo,  zelar para que as sementes plantadas não fiquem vulneráveis às intempéries, aos pássaros e às ervas daninhas. Da boa terra, a boa semente, há de ser ter uma colheita generosa, bons frutos. 
Exemplo de reciprocidade ? Dar e receber ?
Não sei se vou me fazer entender traçando esse paralelo entre a semeadura e a confiança.
Confiança, uma palavra tão em desuso nos tempos atuais, onde quase todos são fúteis, transgressores, transitivos, efêmeros, voláteis; nas ações, assim como nas relações interpessoais, sociais, e nas de convivência sentimental/amorosa.  Valores vão sofrendo reveses; há ainda as mudanças comportamentais que afetam intrinsecamente a ética. Nem se confia, nem disposição encontramos para conquista-la. Estamos vivenciando um fenômeno social e moral, no que diz respeito à ética. Seria uma crise moral ou de costumes ?
Afirmar com convicção que o indivíduo é confiável, seria inocência, purismo, ingenuidade, ou uma demonstração de elevada virtude ?
Os depósitos que fazemos nessa conta, requer a contra partida, os frutos que colhemos hoje da árvore da confiança, antes foram  as sementes que plantamos no campo.
Colher o que se plantou. 
Confio, ainda que em mim não confiem !

sexta-feira, 18 de julho de 2014

" BUCHADA DE BODE NA CASA DE SERENO"

A rua era um areal só, quando ventava levantava um poeirão, sujando tudo, impregnando os rostos suados e as roupas no varal. Dizem que quase não chovia na cidade há pelo menos 2 anos, e a pouca chuva que caía, mal chegava a 15 mm por ano; o ar era rarefeito, pesado, poluído, as nuvens ao sul, eram avermelhadas, as mais próximas da  serra eram enegrecidas, culpa da aciaria, uma  siderúrgica estatal implantada nos áureos tempos da ditadura Vargas. O sol de verão era inclemente, batendo fácil 43 graus à sombra. O pequeno canal que cortava a rua, estava mais seco que língua de papagaio de puteiro, o odor que dele saía era insuportável.
Crianças brincavam, corriam de um lado para o outro, mal sem importavam com o calor.
Dona Sebá, uma senhora de traços nordestinos, mulata, de pouco mais de 60 anos, rosto vincado pela passagem do tempo, e pelos muitos partos, pequena, de corpo roliço, pernas arqueadas, com seu inseparável pano de prato numa das mãos, ia e vinha ao portão. Estava ansiosa. Todo dezembro era isso : agonia, ansiedade pela vinda dos parentes que moravam na capital. Para ela era um acontecimento, alegrava-se, ria solto, feliz, de deixar ver sua boca vazia de dentes, e de fazer ouvir sua gargalhada engraçada.
A parentela chegou ao cair da noite. Exaustos, suados mais que tampa de chaleira, esgotados pela viagem de trem, e famintos. Banharam-se, mataram a fome; reunidos na cozinha, todos falavam ao mesmo tempo, assuntos na faltaram.
O aroma do café invade a casa, Seo Sereno preparou, pôs a mesa : Tapioca doce e salgada, cuscuz, mandioca cozida, pão de ló, suco de graviola, leite, queijo coalho, bolo de fubá, pão de sal e goiabada cascão. Uma a um, hospedes e moradores da casa foram se chegando.
Seo Sereno e seu meu irmão Bio, sorviam uma xícara de café, e pitavam um cigarro de fumo de Viçosa, enquanto iam afiando as facas que iriam sangrar o bode. Pediram para que as portas de acesso ao quintal fossem trancadas, e que as crianças fossem mantidas na rua; não queriam ouvir "xororô".
Do couro saia as correias, o couro do bode estava lavado e estendido na cerca, virado para o sol, a carne cortada, os miúdos separados. Natal sem carne de bode na casa de dona Sebá, não é Natal. 
Cirurgicamente os miúdos eram cortados em cubos, lavados, e postos na peneira. Na cozinha, as mulheres cortavam e picavam cebola, alho, salsa, coentro, pimenta de cheiro, entoando cantigas das velhas lavadeiras do São Francisco. 
O panelão de 40 litros trepidava no fogão a lenha, as carnes cozinhavam, borbulhas soltavam o perfume dos temperos no ar: cominho, pimenta do reino em grão e moída, colorau dando cor às carnes. Na outra menor, estava o corredor do bicho (cervical), pouca água para receber o arroz cozido de final. No braseiro à carvão, estavam sendo assadas as carnes com osso. No fogão da cozinha, a buchada. O cheiro era forte, caldo escuro envolvendo bucho e miúdos, feito na banha de porco e da sangria do bode. Comida para os fortes !
Meio dia, sol à pino, cachaça de alambique, licor de jurubeba, vinho tinto suave e seco, passando de mão em mão,  as cervejas trincando de tão geladas que estavam. Vozerio, cantorias, risadaria,
algazarra, a cozinha era pequena para tanta gente. Espalharam-se pela casa. Os mais velhos à mesa, os pequenos na mesa da sala, ou se ajeitando pelo chão, os mais jovens e afoitos, foram para os quartos disponíveis.
A buchada foi servida. Quem aguenta se agarra, quem não gosta, come arroz com batata.
Dezoito horas, parada para oração de agradecimento.
Retomada, e tome "canjebrina", carne de bode assada, cozida, com arroz, feijão com quiabo, e a famosa buchada.
O calor e a carne forte, fez vítimas, no banheiro o tráfego era intenso.
" Candeeiro se apagou, o sanfoneiro cochilou..."

Para João Ubaldo Ribeiro, que se foi fora da hora combinada.

E viva o povo brasileiro !





quinta-feira, 17 de julho de 2014

"AS CRIANÇAS E AS SUAS PERGUNTAS"

Fazer uma criança entender os "por quês" do envelhecer, não é tarefa fácil, até mesmo para nós adultos a missão é árdua, Dependendo da idade da criaturinha então...só Deus na causa !
Criança é perguntadeira; dos 5 aos 7 anos é quando se lhe desabrocha o interesse em saber como funciona o pequeno universo ao seu redor. Tenho filhos ainda pequenos, netos, sobrinho-neto, e vez ou outra me encostam na parede com perguntas capciosas, quase  sempre  enredadas
nas brincadeiras da vez.
Não faz muito tempo, meu sobrinho-neto me fez a seguinte pergunta :
- Ô tio ! Avião voa mas não bate asas, né! Porque ?
- Por que céu não tem cabelo onde ele possa se segurar ! (respondi)
Nascemos e vamos nos desenvolvendo de acordo com que nos ensinam, vamos assimilando, aprendendo, crescendo e acumulando lições e exemplos. Aprendemos a engatinhar, falar, andar - não necessariamente nessa ordem - à medida que crescemos, evoluímos, passando por todas as fazes, bebês, criança, pré-adolescentes, adolescência, adulta, maturidade, envelhecemos, nos tornamos idosos, sempre acumulando lições, sendo exemplos, e aí finda-se o ciclo.
Na verdade nós crescemos, evoluímos, ou só nos preparamos para nos tornarmos velhos ?
Aí está uma pergunta de criança !

terça-feira, 1 de julho de 2014

" JANELA INDISCRETA III - PONTO FINAL "

Subiu as escadas dos três pavimentos como que em peregrinação, em promessa; resoluta, venceu cada andar sem nem ao menos ofegar. Sua figura contrastava com as luzes ocres, quase apagadas que iluminavam a escadaria do edifício. Ainda respeitava o luto, cores enegrecidas nas vestimentas, saia, meias, botas, blusa e um sobretudo da mesma cor, pretos como seus cabelos longos e lisos. A maquiagem sóbria, deixava seu rosto  bonito, mais iluminado.
Abriu a pesada porta, por alguns segundos ficou paralisada, fitou todo o ambiente. Alguns passos e adentrou à sala; livros repousando na mesa de centro, copos, cinzeiro abarrotado de guimbas de cigarros, velhos LP's espalhados pelo chão, no ar pairava o forte cheiro de fumo, cerveja e uísque, cortinas semifechadas, dava um aspecto de penumbra à sala. Descerrou as cortinas, abriu as janelas, deixou oxigenar o velho apartamento.
Descalçou as botas, as meias, despiu-se displicentemente, vagou pelos cômodos como se quisera encontrar ou ressuscitar o morto.
Encheu um copo com uísque à cowboy, ligou o velho toca-discos, escolheu um disco de Jobim, deixou que o som de Wave tomasse toda a sala, alto e suave, prostrou-se no sofá puído, e se deixou levar pela música.
Jamais havia confessado seu amor ao velho escritor, mesmo nas horas mais cálidas, nos jantares, nas noites de furor insano de sexo e bebida.
Chorava, as lágrimas de Layla, desciam por seu belo rosto, como água de cachoeira, soluçava e se penitenciava por não haver dito : Eu te amo
Adormeceu bêbada, nua em pele e sentimentos.
A noite caiu, fria, gélida e com ventos.
Os mortos não voltaram


Powered By Blogger