terça-feira, 21 de janeiro de 2014

" MUITO PRAZER, MEU NOME É ZÉ...."

Vestia preto, calça, camisa, blazer; sapatos também pretos, reluzentes, caprichosamente
engraxados. Mesmo com a noite caindo, os óculos, de lentes e armação pretas, lhe escondiam os olhos. Cobrindo sua cabeça, um autêntico chapéu Panamá, palha fina. Na lapela, um cravo vermelho. Descia a ladeira como que dançando, gingando o corpo, como se fora a qualquer hora aplicar um golpe de capoeira no ar, os braços longos como os de um mestre sala. Na mão direita, um anel grosso de ouro, e uma pedra de rubi encravada. Na esquerda, um anel de ouro branco, cravejado de esmeraldas, encimado por duas letras estilizadas, onde se lia : BG - Bacharel de gafieira.
Noite escura, apenas a luz da lua iluminava aquela figura negra e esguia. Semblante sério, altivo, caminhava sem pressa; os cães da rua, calaram, cabisbaixos como se prestassem reverência. Silêncio na noite.
De frente ao número 107 da rua dos Lírios, ele para. Casa simples, mas de bom acabamento. Luz fraca do alpendre acesa. Bate palmas firmemente. Barulho de fechadura; aos poucos as porta vai sendo aberta. De dentro, uma voz  pequena e masculina, pergunta quem é.
A voz grossa feito uma troada de trovão, provoca arrepios no gato cinzento que dormitava na soleira da porta.
- Quero ter com Benício Santos, é ele ?
- Sim, é .
Entre surpreso e amedrontado, um homem de estatura mediana, sem camisa, vestindo calça marrom,  cinto carcomido afivelado na cintura, e um par de tamancos lhe calçando os pés, caminha até o portão, fazendo tóc, tóc, tóc, a cada passo que dava. Vislumbra a figura do homem negro, de quase 2 metros, todo vestido de preto. Treme-se todo.
- Meu nome é José Pilintra, mas pode me chamar de "Seo" Zé Pilintra. Venho para lhe dar um aviso - sua voz era firme e forte - se tornares a fazer sofrer  mal tratos, tua mulher e filhos, darei fim aos teus dias na terra. O homenzinho viu que de dentro da lentes escuras dos óculos, daquele homenzarrão, saíam duas xispas de fogo .
Suas mãos e pernas tremiam como vara verde, a garganta ficou seca, tal qual língua de papagaio, não conseguia emitir uma só palavra, um único som, nem mesmo balbuciou, emudeceu-se. Olhos esbugalhados pelo pavor, suor lhe tomando a face. Só fitava as xispas nos olhos de Seo Zé.
- Entendeu o que eu disse ? E sem nem ao menos esperar a resposta, mandou Benício se retirar.
Os tamancos ficaram pelo quintal. Nem olhou para trás.
Manhã seguinte. Ao sair para mais um dia de labuta, Benício se depara com um cravo vermelho pendurado no portão. Não era um sonho.
Hoje frequenta a igreja, dá banho nos cachorros, leva as crianças na escola, ajuda a esposa a preparar a janta. Nunca mais bebeu.


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Faça seu comentário, não há censura, o importante é a sua opinião para que eu possa me aprimorare levar o melhor aos leitores.

Powered By Blogger