sexta-feira, 18 de julho de 2014

" BUCHADA DE BODE NA CASA DE SERENO"

A rua era um areal só, quando ventava levantava um poeirão, sujando tudo, impregnando os rostos suados e as roupas no varal. Dizem que quase não chovia na cidade há pelo menos 2 anos, e a pouca chuva que caía, mal chegava a 15 mm por ano; o ar era rarefeito, pesado, poluído, as nuvens ao sul, eram avermelhadas, as mais próximas da  serra eram enegrecidas, culpa da aciaria, uma  siderúrgica estatal implantada nos áureos tempos da ditadura Vargas. O sol de verão era inclemente, batendo fácil 43 graus à sombra. O pequeno canal que cortava a rua, estava mais seco que língua de papagaio de puteiro, o odor que dele saía era insuportável.
Crianças brincavam, corriam de um lado para o outro, mal sem importavam com o calor.
Dona Sebá, uma senhora de traços nordestinos, mulata, de pouco mais de 60 anos, rosto vincado pela passagem do tempo, e pelos muitos partos, pequena, de corpo roliço, pernas arqueadas, com seu inseparável pano de prato numa das mãos, ia e vinha ao portão. Estava ansiosa. Todo dezembro era isso : agonia, ansiedade pela vinda dos parentes que moravam na capital. Para ela era um acontecimento, alegrava-se, ria solto, feliz, de deixar ver sua boca vazia de dentes, e de fazer ouvir sua gargalhada engraçada.
A parentela chegou ao cair da noite. Exaustos, suados mais que tampa de chaleira, esgotados pela viagem de trem, e famintos. Banharam-se, mataram a fome; reunidos na cozinha, todos falavam ao mesmo tempo, assuntos na faltaram.
O aroma do café invade a casa, Seo Sereno preparou, pôs a mesa : Tapioca doce e salgada, cuscuz, mandioca cozida, pão de ló, suco de graviola, leite, queijo coalho, bolo de fubá, pão de sal e goiabada cascão. Uma a um, hospedes e moradores da casa foram se chegando.
Seo Sereno e seu meu irmão Bio, sorviam uma xícara de café, e pitavam um cigarro de fumo de Viçosa, enquanto iam afiando as facas que iriam sangrar o bode. Pediram para que as portas de acesso ao quintal fossem trancadas, e que as crianças fossem mantidas na rua; não queriam ouvir "xororô".
Do couro saia as correias, o couro do bode estava lavado e estendido na cerca, virado para o sol, a carne cortada, os miúdos separados. Natal sem carne de bode na casa de dona Sebá, não é Natal. 
Cirurgicamente os miúdos eram cortados em cubos, lavados, e postos na peneira. Na cozinha, as mulheres cortavam e picavam cebola, alho, salsa, coentro, pimenta de cheiro, entoando cantigas das velhas lavadeiras do São Francisco. 
O panelão de 40 litros trepidava no fogão a lenha, as carnes cozinhavam, borbulhas soltavam o perfume dos temperos no ar: cominho, pimenta do reino em grão e moída, colorau dando cor às carnes. Na outra menor, estava o corredor do bicho (cervical), pouca água para receber o arroz cozido de final. No braseiro à carvão, estavam sendo assadas as carnes com osso. No fogão da cozinha, a buchada. O cheiro era forte, caldo escuro envolvendo bucho e miúdos, feito na banha de porco e da sangria do bode. Comida para os fortes !
Meio dia, sol à pino, cachaça de alambique, licor de jurubeba, vinho tinto suave e seco, passando de mão em mão,  as cervejas trincando de tão geladas que estavam. Vozerio, cantorias, risadaria,
algazarra, a cozinha era pequena para tanta gente. Espalharam-se pela casa. Os mais velhos à mesa, os pequenos na mesa da sala, ou se ajeitando pelo chão, os mais jovens e afoitos, foram para os quartos disponíveis.
A buchada foi servida. Quem aguenta se agarra, quem não gosta, come arroz com batata.
Dezoito horas, parada para oração de agradecimento.
Retomada, e tome "canjebrina", carne de bode assada, cozida, com arroz, feijão com quiabo, e a famosa buchada.
O calor e a carne forte, fez vítimas, no banheiro o tráfego era intenso.
" Candeeiro se apagou, o sanfoneiro cochilou..."

Para João Ubaldo Ribeiro, que se foi fora da hora combinada.

E viva o povo brasileiro !





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