Quando criança, ouvia das conversas captadas pela minha curiosidade infantil, e ouvidos sempre sintonizados no colóquio alheio, palavras que vazavam das rodas de bate papo do meus pais, tios, tios-avôs, parentes e agregados, e que para mim soavam estranhas;uma delas era : Matrona. Ficava encafifado com a sonoridade, com o tom como ela era dita. Aquilo me dava comichões. Vez ou outra, quando descoberto, era convidado a me retirar dos arredores da cozinha ou da sala,
sob o olhar severo dos olhos verdes da minha mãe. Não precisa dizer palavra, bastava só o olhar
que me fuzilava. E quando passava por mim, já distraído a brincar com os primos e irmãos, ela dizia:
- Depois nós conversamos
O dia acabava ali pra mim, sabia que o couro ia comer.
Os anos se passaram, e muitas e muitas Matronas depois, passando por umas das ruas no centro de São Vicente, me deparei com uma casa antiga, deve ter uns 60 anos ou mais, muro de pedras cinza-chumbo, não muito alto, grades de proteção da mesma cor, garagem à esquerda, portões de ferro do mesmo tom. Um jardim pequeno; roseiras, Marias-sem-vergonhas, onze-horas, azaléias, cravos-vermelhos, um araçarizeiro, pitangueira e gatos, muitos gatos. Pretos, brancos, amarelos, cinzas, marrons, que zanzavam pelo quintal. No que seria uma varanda de piso avermelhado, uma senhora de uns 80 anos ou mais - tez e cabelos branquíssimos, bochechas rosas, rosto vincado, óculos de lentes fortíssimas, destacavam seus lindos olhos azuis, arqueada pela idade, corpanzil, não era uma mulher alta - trazia em uma das mãos um pote de alumínio, com a outra batia com uma colher de pau, no pote, e emitia, com sua voz quase sumida, palavras que para mim soavam familiar, os bichanos atendendo ao chamado, se aglomeravam à frente da velha senhora que caminhava com certa dificuldade, distribuindo o que deveria ser uns biscoitos. Falava com eles como se fossem crianças, sorria feliz. Imediatamente fui remetido ao passado, e lembrei-me dos sons daquelas palavras; eram, em sonoridade, as mesmas de meus avós, tios-avôs, e parentes da velha Rússia, sem me esquecer da parte romena (essa era a herança da minha avó), que me soava mais familiar.
Dias atrás, caminhando pelo centro, parei em frente à velha casa, o jardim estava no mesmo lugar, os gatos e a velha Matrona não. Seu neto, muito educado por sinal, disse-me que ela partira há alguns anos, aos 98 anos, dormindo, sem sofrer, plácida. Era russa, amava o Brasil, plantas, gatos, calor e mar. Seu nome era Nádia, ou como todos a chamavam: Dona Bibyana
