quinta-feira, 5 de maio de 2011

O FORRÓ DE "SEO" NICANOR

Sábado é um dia especial, é o dia que marca o fim de uma semana de trabalho árduo; principalmente para trabalhadores da construção civil, empregados domésticos, comerciários, ambulantes, etc... é um dia a se comemorar. Sábado também é o dia da "paga", dia de receber o vale semanal, o dinheiro que vai botar um sorriso na cara do trabalhador. É o dia em que Marinaldo, mais espera, mais deseja. Pernambucano de Quipapá, semi-árido de Pernambuco;  Marinaldo veio tentar a sorte na cidade grande; escolheu São Paulo, pelas oportunidades que cidade oferece àqueles que têm vontade e coragem de vencer. Não tendo nenhuma formação escolar, nem mesmo profíssional, Marinaldo logo que chegou, não demorou a arranjar emprego, queria trabalhar para ajudar seus pais, que ficaram na distante e saudosa Quipapá. Seu primeiro emprego foi de servente de pedreiro na construção civil. Penou feito mula de padre nos primeiros meses, não aguentava o frio de São Paulo, a saudade da terra e dos pais. Mas aos poucos foi se adaptando. A obra era no bairro de Alto da Lapa, zona oeste , um edifício de padrão AA. Estava na construção do edifício, desde as primeiras fundações. Já haviam passados três anos e meio da sua chegada. No próprio emprego se alfabetizou e não parou mais, fez o ensino médio e também cursos profissionalizantes. Danado esse menino! Hoje já é contra-mestre, tem um salário razoável, mora na periferia em casa popular e continua ajudando os pais - que nunca quiseram vir nem para visitá-lo, dizem que têm medo da violência - Cabra manhoso esse Marinaldo, nem pensa em se casar, quer mesmo é viver a solteiriçe, curtir a vida e ... zoar no forró !!
Depois do expediente do meio expediente de sábado, já com a paga, na carteira , Marinaldo vai ao barbeiro, ajeita barba e cabelo. Toma o ônibus e viaja hora e meia para chegar à sua casa. Passa no bar do Lagoa, toma um coice de mula e uma cerveja gelada, bate papo com os amigos, joga uma partida de dominó e depois vai pra casa.
Depois do cochilo- que ninguém é de ferro - Marinaldo, toma um banho, passa uma água de cheiro, veste sua melhor roupa e segue  pro lugar que mais gosta de estar aos sábados : O Forró de "seo" Nicanor. É lá que ele se diverte. E  como ele mesmo diz :
- O cabra tem que ficar mais bonito e colorido do que abajur de puteiro, cheiroso feito "fio" de barbeiro e joiado quinem cigano. Pumódi da muié notá !
E lá vai Marinaldo, todo faceiro, pro forró
O salão é grande , porém acanhado, não tem o glamour das grandes casas de espetáculo, mas  o povo quer é se divertir, molhar a camisa, arrastar o pé, chacoalhar a moranga, assustar o fígado e ... namorar. Quem liga pra luxo é jurado de desfile de escola de samba. E tome forrozar ! Marinaldo todo suado, feito pão doce de padaria, encosta no bar e pede uma gelada. Olha pro lado e avista uma morena, estatura mediana, cabelos pretos, unhas pintadas de vermelho, lábios carnudos, figura difícil de não ser notada. trocam olhares. Marinaldo se enche de coragem e vai até a morena :
- Olá, sou Marinaldo, aceita uma cervejinha ?
- Gosto não ! Mas aceito um pepper ( retruca a brejeira morena, batendo as pestanas mais que olho de cego )
- O Ciço !! Dá um pepper aí !! ( Pede para o balconista do bar do forró )
Voltando-se para a morena, retoma o diálogo
- Então...nunca vi você por aqui, é sua 1ª vez na casa ? Como é mesmo seu nome ?
- É não...é a 2ª vez que venho..meu nome é Aurinice, mas pode me chamar de Nicinha ( toda cheia de dengo )
Marinaldo aproveita a deixa e a convida para dançar. Os dois não se largaram mais. Forrozaram a noite toda, era um chamego só. Abraçadinhos saíram do baile, já amanhecia o dia, o sol brilhava no céu e abrasava o coração e as intenções do peão. Pararam em uma padaria para beber a saideira. Já se sentindo dono da situação e da morena, Marinaldo faz um convite para Nicinha :
- Que tal a gente ir lá pra casa ouvir um forrózinho e prosear um pouco ? a gente vai se conhecendo...
Mal termina o que vai dizer e a morena corta
- Posso não, moro mais minha tia, num posso dormir fora não..
Marinaldo atalha
- Mas nós num vamo durmir não , vamo ficar acordadinhos conversando, vamo lá "neguinha" - fala Marinaldo , cheio de amor para dar -
- Mas a gente nem se conhece direito, posso não ! ( Fala Nicinha demonstrando pouca convicção )
-Ahh, bora lá,
Pensativa e olhando para o chão, Nicinha concorda
- Mas não posso passar das oito tá ? Posso pedir um favor ?
- Peça minha princesa ? - Já dando um cheiro no cangote da morena -
- Tu compra umas cervejas pra tu e uma dose de pepper pra mim ?
- Teu pedido é uma ordem.
Instalados na sala, a conversa corria solta, falavam das coisa de suas terras, de suas vidas, bebericavam, lá pelas tantas, Nicinha pede para ir ao banheiro.
- É ali ó - apontando para uma porta no corredor da casa.
- Posso jogar uma água no corpo, hein meu bem ? ( Jogando charme )
Marinaldo pensou : Tá fisgada, é hoje.
- O meu coração, pode sim, lá tem uma toalha novinha; pode usar.
- Então vamos brindar - já com um copo de pepper na mão e oferecendo para Marinaldo beber um trago.
Bebeu tudo de um gole só, limpou o canto da boca com a mão e tascou um beijo de cinema na morena.
- Oxi homem !! Perainda, xeu tomar um banhinho, é já que volto - sai pelo corredor em direção ao banheiro.
Marinaldo se ajeitou no sofá, empurrou a mesa de centro com os pés, deu uma arrumada nas almofadas e se jogou no sono dos justos. Uma sonequinha não faz mal nenhum para o guerreiro.
Acordou sobre saltado, meio sonolento, sem entender direito onde estava, aos poucos foi se assenhorando das lembranças...
- Rapaz cadê Nicinha ? Oxi que horas são ?
Olhou para o relógio passava das 2 da tarde
Chamou por Nicinha e nada...foi ao banheiro e nada
- Oxi cadê a mulher ? Voltou para a sala e notou que a TV e o tocador de CD's , não estavam no rack, vestiu as calças apressadamente, procurou a carteira e nada...
Nem carteira, nem dinheiro, nem TV, muito menos o tocador de CD's e, nem Nicinha.
Na mesa de centro um bilhete  onde se lia :
- Boa noite Cinderela !!!

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