Auristênio, era um sujeito grande, alto mesmo; gaúcho tradicional, do churrasco ao chimarrão, a pele era branca, influência dos seus avós italianos, por parte de pai e alemães por parte da mãe, os cabelos eram meio alourados, os olhos duas pedras de turquesa, falava e gesticulava ao mesmo tempo, sua voz era como um trovão, tinha o sotaque bem carregado; tratava a todos como se já os conhecesse à tempos. Era uma figura carismática, camarada e solidária - jamais proferiu um não, a um favor que lhe fôra pedido - Aventurava-se por esse brasilzão, atrás do volante de seu "bruto" - era assim que tratava sua carreta - pra cima e para baixo, transportando todo tipo de carga; não negava frete, onde quer que fosse, ele abraçava o trabalho.
Certo dia, o agenciador lhe propôs que transportasse uma carga de transformadores elétricos, desses de milhões de mega-watts - é assim que se escreve , né ? - que deveria ser entregue no Estado de Minas Gerais, na cidade de Matosinhos, a carga era pesada, porém o frete era muito bom, além do mais, voltaria com uma carga de sacas de café. Acerto feito, pé nas estrada. Depois de 18 horas de viagem, a carga de transformadores foi entregue. Foi uma luta na estrada, chuva, neblina, buracos e muito cansaço. Agora é descansar um pouco e seguir até o próximo frete. Depois de um descanso de apenas duas horas, estrada novamente. A carga da volta estaria em uma fazenda cafeeira, que distava cerca de 40 kms. Um dos caminhos até a fazenda era uma estradinha vicinal; enlameada, esburacada e estreita. Todo cuidadoso, Auristênio, conduzia sem "bruto"; atolar ali seria um desastre !! Não havia socorro, guincho? Nem por decreto. Seguia devagar, ladeira após ladeira, escorrega, desliza, sobe desce. Enfim, depois de tanto sofrimento e lama, chega à fazenda.
Enquanto carregam o caminhão, o capataz da fazenda, lhe oferece banho é bóia. Banho tomado, Auristênio, toma seu lugar à mesa do restaurante, - não é todo lugar que dão esse conforto - o cardápio era leitão a pururuca, assum, arroz na banha, feijão com carne de porco, salada, farofa e uma "lambada de serpente" da terra. Esfomeado, repetiu duas vezes. O sono veio forte. Agradeceu a bóia e foi dormi na boléia da carreta. Barriga cheia, sono profundo. Por volta das 18:00 hrs, bateram à porta, a carga já estava embarcada. Conferiu carga e papelada. Agradeceu e despediu-se. Estrada novamente, desta vez o cuidado seria redobrado, a chuva havia voltado e a estrada deveria estar em pior estado de que quando chegara.
Devagar, seguia seu rumo. De repente, sentiu que o almoço não só lhe pesara no estômago, mas como também, seu efeito retardado no intestino: Glo, glo, glóóóóó !! Prrrarrr ráááá´!! A cólica veio forte e quase incontrolável, um movimento em falso e tudo estaria perdido ou contido pela cuéca e pelas calças, esparramaria seu forte odor pela boléia, quiçá as provas do lauto almoço pelo assoalho do bruto !!
Ptzzzz !! Freiou o caminhão e de um salto, correu pela mata para se aliviar. Deu tempo só de levar consigo uma lanterna para "alumiá" o caminho. Deixou a lanterna fixada a um arbusto e entregou-se às forças incontidas e incontroláveis da natureza do homem. Estava tão absorto, que nem notou o barulho que vinha da mata; pisadas compassadas, quebrando galhos secos, ora parava, ora continuava, à medida que avançava, o barulho na mata aumentava, despertando a atenção de Auristênio. Surpreso e assustado, o motorista, cessa momentâneamente o trabalho de quase parto; levanta a lanterna a altura do rosto e agachado mesmo e com a voz esganiçada, quase inaudível, solta :
- Quem vem lá ?
Do outro lado , mais assustado ainda com a cena - pois deu-se com um ser atarracado, braços longos, com a cabeça soltando uma luz branca, quase não deixando à vista mais nada - uma voz de homem irrompe num quase grito :
- Sou eu !! Benevides Sobral, brasileiro, casado, mateiro de profissão, venho em paz , câmbio !!!
Por sua vez, o motorista, refeito do susto, replica :
- Auristênio, gaúcho, motorista !! Cagando !!!!

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