quarta-feira, 11 de setembro de 2013

" O BODE DA DISCÓRDIA "

Zelão, é um cara safo;  exerce,  dentre muitas profissões, a de ferreiro; confecciona não só ferraduras, mas tudo o que se relacionar a cavalos. Doma  o animal com maestria, entende a psicologia do bicho. Usa também seus dotes de marceneiro e carpinteiro para construir charretes, carroças, veículos de tração animal, quase muito pouco vistos transitando pelas vias das cidades. Confeiteiro de mão cheia, faz bolos, doces e até salgados, que vende à domicílio. Nas horas vagas, usa seu outro dote, outro dom; o de entalhador. Faz arte em pedaços e troncos de madeira, sejam nobres ou não. Da forma e graça aos rostos entalhados, pura arte. Expõe em feiras e praças, vende sua arte. E como ele mesmo diz : Não sou eu quem as faz, fico apenas atrás da ferramenta, a peça é quem me impulsiona !
Há alguns anos atrás, morava numa comunidade barra-pesadíssima de uma cidade litorânea. Tinha uma gleba de terra, onde ergueu um chalé de madeira, para morar com a família. Ao lado da humilde moradia, funcionava a sua ferraria, Nos fundos, criava aves, porcos, bodes e cabras; e uma pequena horta, muito bem cuidada.
Na ferraria, juntava-se, toda a fauna da malandragem, além charreteiros, carroceiros, cavalariços, e curiosos. Bem falante, fazia amizade com todos que se aproximassem para um dedo de prosa. Numa ocasião, adentra à sua ferraria, um cidadão, velho conhecido seu, acompanhado de um homem alto, forte, aloirado, com um turbante branco enfeitando parte de sua cabeça; trajado de vestes africanas, colares, cordões coloridos e penduricalhos, enfeitando o pescoço até a altura do umbigo. Foi-lhe apresentado pelo velho conhecido como Pai Loló d'Angola, babalorixá de terreiro e de casa santeira. Rosto expressivo, meio bonachão, efeminado nos gestos, e nos dizeres. Foi logo perguntando se Zelão era o engenheiro de obras prontas. Todos riram, inclusive o próprio ferreiro.
Passada a galhofa, dizia estar ali em missão espiritual, pois seu amigo lhe havia dito e garantido, que só ele, Zelão, o ferreiro, poderia resolver  sua situação. Porque necessitava de um bode preto, mas preto mesmo, para oferecer a uma das suas divindades. E que o estava cobrando, a oferenda.
O mestre ferreiro, o olhou de cima a baixo com seus olhos pequenos e castanhos claros, como a medir e a absorver cada palavra do "Baba". Ficou em silêncio por alguns segundos e devolveu.
- O bicho eu tenho, mas está apartado, pois está no cio, e quer cruzar com as bichinhas, Por isso não posso, lhe servir agora. E no momento, não me interessa vende-lo.
O rosto do babalorixá, se iluminou, seu largo sorriso, resplandeceu. Batia palminhas, excitado com a possibilidade de poder saldar sua divida. Queria ver o bode de qualquer jeito. Vontade que não lhe foi concedida. Pelo já exposto, bicho apartado, etc e tal. E bota preço, e arreda preço, finalmente foi acertada a venda.
Mesmo sem nem ter visto o bicho, fechou a compra. Preço acertado, bigode no laço. Se foi, com a data do regresso já combinado, para dali três dias. O dia passou sem mais novidades. Encerrado o expediente na ferraria, o nobre artista, vai cuidar de seus animais.
Na data combinada, o babalalorixá chega em uma vistosa caminhonete e mais dois homens, também trajados em panos afros, deviam ser do seu abai tolá. Breve saudação, descem para apanhar o bode. Negro como pedra de carvão, pelo lustroso, manso, puxado por uma pequena corda por um dos homens. Lá se foi, seguiu o seu destino com seu novo dono.
Passadas algumas horas, um carroceiro em visita à ferraria, pergunta a Zelão, se não era o bode Manchinha, aquele que ele vira, na carroceria de uma camionete. Positiva a resposta, acrescenta ainda : - vendi bem, bom preço, cinco vezes mais do que valeria, senão tivesse eu, tingindo a manchinha da cabeça dele, com tinta preta para cabelos.
" Se o caminho é meu..."




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