domingo, 4 de agosto de 2013

" MORRI, E EU ESTAVA LÁ ! "

Não sei muito bem como aconteceu, mas estava lá, não sei o dia, ano, nem muito menos como, ou onde. Gente a dar com pau. Homens, mulheres, jovens, crianças, idosos. Amigos, parentes, conhecidos, outros nem tanto. Mas eu estava lá.
Chororô, orações discretas, conversas, risos, gargalhas, "causos", anedotas; uns relembravam algumas das minhas aventuras, desventuras, as várias fases da minha louca vida.
Num canto ou em outro, uns falavam bem, outros desciam a lenha, destilavam pilhérias, mas na verdade era só inveja. Quantos desses não haveriam querer viver tudo que vivi. Os lugares por onde andei, viajei, estive, morei. Alguns até diziam que eu tinha sido um perdedor. Eu estava lá...
Ao fundo, num jardim de inverno, improvisaram um pagode. Sambas que eu gostava, de gente da velha e da nova safra. Aos poucos foi  juntando gente, à medida que o tempo passava, crescia o número de visitantes. Fila para condolências, abraços, afagos, tapinhas nas costas, dos meus filhos, netos, irmãos, cunhados e sobrinhos, até de primos. Minha velha mãe, estava passada, numa cadeira assentada, meio que perdida, aturdida, sem entender ainda nada. Efeito dos calmantes, na certa.
As ex-esposas, iam chegando; rostos inchados, não sei se de risos, causadas pela alegria da minha partida, ou de choro chorado, das boas lembranças vividas, divididas, dos tempos já distantes. Mal se olhavam. Chegavam também as ex- noivas, namoradas, amantes, os "casos". Se aproximavam do caixão, umas oravam, outras faziam o sinal da cruz em respeito ao defunto - que era eu - algumas vertiam lágrimas sinceras, outras vieram só para ver se era verdade mesmo. Um abraço aqui, um aperto de mão ali, nos amigos, na parentada enlutada,  iam se postando e se juntando aos demais. E eu estava ali.
Risadaria no salão ao lado, logo contida por um psiu, olha respeito. O cheiro do marafo, impregnava o ar, tequila, uísque, cerveja e rum, servidos na mesma bandeja do café preto e forte. Era de meu gosto. Não iriam me desapontar.
As horas passavam. O sol pregado no céu, nuvens desenhando figuras, calorão, do jeito que eu gostava. Passarinhos livres e soltos na natureza, gorjeavam, cantos que até aquele fatídico dia, jamais soube identificar a raça. Tudo parecia conspirar a meu favor.
Coroas e mais coroas de flores, de amigos, conhecidos, parentes e desafetos, sempre gostei de flores, não seria agora que iria mudar.
Suando em bicas, entra o padre, todo aprumado em seus quase 90 anos. Meu pai de santo; um amigo muçulmano, convidou um mulá para participar da missa de corpo presente, também vieram um rabino, um pastor e um guru. Sempre defendi e união das religiões, um culto ecumênico seria o mais acertado.
Aos poucos, o som de um samba foi invadindo o velório. Minha doce e amada esposa, agora viúva, fez um pedido aos músicos que haviam organizado o pagode, para  que tocassem Timoneiro, defendida por Paulinho da Viola :
" Enquanto mais remo, mais rezo, pra nunca mais se acabar, essa viagem que faz o mar em torno do mar. Meu velho um dia falou, com jeito de avisar : Olha ! O  mar não tem cabelos, que  a gente possa agarrar.. Não sou eu quem me navega. quem me navega é o mar...é ele que carrega, como se fosse levar..."
Puta que pariuuuu !! Acordeiiii...era um sonhooo !


3 comentários:

  1. quanta imaginação, saudosismo ...
    vai demorarrrrrrrrrrrrr... rsrs

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  2. marciamelo44@hotmail.com22 de outubro de 2014 às 12:01

    Demais esse texto! Vc me surpreende cada vez que leio um texto seu.Muito bom

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  3. Vixiiiii. Sonho sinistro. Rsrsrsrs

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