sexta-feira, 12 de abril de 2013

" A VIDA SEGUIU "

O carro ficou estacionado a três quadras, lugar seguro, perto da praia, acesso fácil para qualquer lugar, caso fosse necessário uma saída rápida. 
Secura na boca, aperto no coração, mal estar, caminhar os quase quatrocentos metros parecia uma eternidade, cada metro vencido significava kilometros. Pouco falou ao telefone, tudo cifrado, cochichado, percebi angústia e medo nas poucas palavras, mas o pouco que pude entender, deixou-me com muito medo. Cheguei.
Dei a volta por trás da portaria principal, entrei pelo acesso da garagem, parei na portaria secundária; falei rapidamente com o porteiro.
- O "homi" teve aí hoje pela manhã. ( Diz ele ) - Mas sem novidade, veio com uns dois "gorilas" que nunca vi !
- Morenos e altos ? ( Perguntou eu )
- Sim, esses mesmos. Um ficou lá fora na principal, o outro subiu com o "homi". Descerem depois de uns 40 minutos. Mas sem novidade ( Arremata )
Deixei duas notas de galo ( cinquenta reais ), na mão dele. Pedi para acionar a campainha do interfone, assim que notasse algo de diferente. Subi no elevador, os 7 andares foram vencidos morosamente, muito mais do que jamais notei . Ansiedade mata !
Bati à porta de serviço, dois breves toques, e um terceiro mais forte.
Liá abre a porta, apenas uma fresta, entro tudo às escuras, acendo a luz da cozinha. Seu rosto e olhos estão inchados, marcas de quem chorou muito. Nos abraçamos longamente, nada dissemos um ao outro, senti suas lágrimas escorrem no meu pescoço, grossas e copiosas. Nos refizemos. Apaguei a luz, fomos para a sala. Abajur acesso, pouca luz. Entre mais lágrimas e soluços, ela foi me relatando tudo. Quase não prestei atenção. Nunca a tinha visto chorar, seu rosto sempre com um sorriso estampado, vivaz, alegre, bonito, nessa noite era de uma menina assustada e com muito medo, por nós, pela nossas vidas.
Disse-me,  que não tinha assumido nossa relação, para Júnior,  que tudo não passava de fofoca, de mentiras, de acusações infundadas, de calúnia. Eu continuava a olhar em seus olhos fixamente, e a ouvir a tudo. Imaginando a barra que passou, a pressão que sofreu, emocional e,  poderia ter sido física também. Em segundos, viajei até o dia que nos conhecemos.
Fui incumbido a buscá-la num apart-hotel em Santos,  com breve descrição física e o endereço. Cheguei no horário acertado, manobrei o carro, estacionei. Mal atravessei o estacionamento e dei de cara com ela na recepção. Morena, cabelos encaracolados ainda molhados, blusa preta, saia em tons florais, sapatos saltos médios, que lhe dava um porte maior que seus 1,68 m, um cordão grosso de ouro no pescoço, com uma medalhinha de Nossa Senhora, pendurada. Irresistíveis olhos castanhos e o sorriso largo.
- Você é o...o Turco ? ( Pergunta ela )
Sorri, aquiescendo com a cabeça.
Era a nova amante do patrão. Minha tarefa : Alugar um apartamento, onde ela quisesse, acertar tudo, inclusive providenciar móveis e fazer a mudança. Foram duas semanas juntos, da manhã ao anoitecer.
Discreta, não perguntava muito. Só se, ela, não estava atrapalhando minha vida social, ou levando problemas para a namorada. Respondi, qual delas ? Rimos muito.
Numa sexta-feira à noite meu celular toca, um número desconhecido, atendi. Era ela.
- Que você vai fazer hoje ?
Pensei alguns segundos...
- Nada, por quê ?
- Vamos sair juntos ? Tem problema para você ? Quero me divertir, dançar, sei lá, ver gente !
Começo do fim.
Desse dia em diante, as coisas tomaram um rumo que eu não queria. Me tornei, amante da amante.
De volta à sala, ao abajur e à realidade.
Ela me olhava, eu estava absorto, voltando do passado recente. Estava vestida com uma camisa que eu havia esquecido em seu apartamento. Linda, cabelos presos, os olhos voltaram a brilhar, nos levantamos, nos beijamos. Boca carnuda, línguas desesperadas... cheiros, perfumes se misturando, desabotoei cada botão da camisa  que ela vestia, desesperadamente rasguei sua calcinha preta,  ao mesmo tempo que ela, me livrava das minhas; senti seu corpo, seu sexo quente, fizemos um amor louco no chão. O sono veio forte, apagamos.
Acordamos com a campainha  do interfone tocando. Lépidos, despertamos. Ela atendeu. Voltou tão rápida quanto foi à cozinha atender a chamada. Era o porteiro. Vesti a calça, enfiei os pés no sapato, peguei a carteira, celular e a camisa. Dei-lhe o último beijo, e desci as escadas da saída de emergência, venci cada andar como se fosse um fundista. Já na garagem, pulei o muro dos fundos, caí no estacionamento do prédio vizinho. Sai sorrateiro pela portaria.
Nunca mais nos vimos. Nunca houve um : eu te amo. A vida seguiu.



Um comentário:

  1. As vezes um único encontro na vida se torna o mais importante e lembrado da história!!!!!!

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