A noite caía rápido, aos poucos as lampadas dos barracos se acendiam iluminando becos e vielas. Um fachinho aqui, outro ali; sombreavam as roupas estendidas nos varais - criavam formas nas paredes feitas de aglomerado naval - que vez por outra assustavam os menos acostumados, quando uma corrente de vento, fazia com que vestidos e camisas parecessem seres horripilantes correndo pelos becos. O que é que o medo não faz !?
Maria das Graças, percorria as ruelas da favela, apressadamente, galgava escadas esculpidas em barrancos, gamelas em rios de esgoto a céu aberto, tropeçava nos cascalhos mal assentados dos becos, encharcava a sandália e os pés na lama do caminho, por cerca de 40 minutos até chegar ao seu humilde barraco, de onde saíra às 04:40 da madrugada, para ir trabalhar de faxineira em bairros nobres da cidade. Pegava trem, e ônibus, percorrendo longos km, viajando em pé, transportes abarrotados e sem o menor conforto. Ida e volta, um martírio. Depois de encerrado o expediente, ainda tinha todo o morro para subir. Chegava exaurida no barraco. Porém, aquele dia era um dia atípico, além de carregar o peso das pernas, trazia nos braços uma caixa de papelão de mais de 20 kg. Subia cada degrau, escalava cada barranco como se tivesse em uma jornada esportiva; dava o máximo de si, transpirava em bicas, entretanto mantinha no rosto, um sorriso largo e feliz. Trazia nos braços um tesouro, não de ouro, esmeraldas, rubis, diamantes; não, não era um tesouro desses capaz de despertar interesses aos caçadores de aventuras. Era uma cesta de natal. Dessas que contêm tudo quanto é guloseimas, frutas secas, bebidas e todos os tipos de castanhas e coisa e tal. Sua efusiva alegria, seria dividida com a família, marido e 3 filhos, que a aguardavam ansiosamente para desfrutar da sonhada ceia de natal.
Todo o sacrifício é pequeno quando se labuta na seara do Senhor. Deus é mais !
Este blog destina-se a textos e crônicas sobre assuntos relevantes e importantes à vida do cidadão. E tem como princípio levar alegria e reflexão.

Lindo e real...fico imaginando que devem existir várias Marias das Graças por aí...
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