Antevéspera de natal, dezembrão, calor senegalesco, abafado, mais ainda depois da chuva que ousara cair no final da tarde. O ponto de ônibus estava apinhado de gente esperando o coletivo passar, os destinos eram as vilas operárias, lá nas distantes periferias da capital Paulista; periferias porque São Paulo é enorme, então cabe o plural. Pois bem, dito isso vamos aos fatos. As pessoas iam chegando e se aglomerando; nos braços, mãos e até nas cabeças, sacolas coloridas, pacotes, embrulhos, caixas das mais variadas dimensões. TV, PC's, roupas, brinquedos, tudo que o dinheiro do 13º pode comprar e dar alegria ao povo pobre, humilde e trabalhador, é o que mais almeja durante todo o sacrificado ano. Para a glória e felicidade do comércio e dos Institutos de estatísticas. Deixemos de frescura e continuemos...
18:15, lá vem pela calçada, já meio que cambaleando e efusivamente alegre, devido as "garapas" e "tinguás", que havia ingerido; Seu Malaquias, pedreiro de mão cheia, conhecido de todos pela alegria e simpatia. trabalha bem perto do ponto de ônibus, cumprimenta um, acena para outro, mexe com as crianças, distribui abraços e piscadelas para as moças, que também labutam em casa e apartamentos das redondezas. Escorado no ponto de parada, Seu Malaquias, aguarda a chegado do ônibus que o levará para casa. Um gaiato passa pedalando uma bicicleta e bem alto diz :
-Tá ventando aí Seu Malaquias ?
-Tá não, fio d'uma égua !
O ônibus 672 X -Penha / Cohab Bonifácio vem se aproximando, as pessoas se agitam, alvoroço na fila, empurra-empurra, cotovelo na cara, joelhada na bunda, sovaco mal cheiroso no nariz, bafo de gamela, e vão subindo, um a um os passageiros. Uma senhora com os braços cheios de sacolas, tenta galgar os degraus da escada do ônibus, mas é impedida a cada nova tentativa, pois além das sacolas, seu corpanzil não lhe dá mobilidade suficiente para tamanho esforço demandado. Seu Malaquias, prestativo que só ele, prontifica-se a ajudá-la. Apoia a volumosa buzanfa nos ombros, ajeita daqui, ajeita dali, até que a mulher sobe. Seu Malaquias, fica na porta equilibrando-se para não cair, parece pingente, a porta se fecha; a viagem segue. O corredor está cheio, o aperto é enorme, mal dá para pôr os pé no chão. As janelas em sua maioria estão fechadas, o que deixa o ar dentro do coletivo insuportável, rarefeito e muito quente. A mulher das sacolas, tenta chegar até a catraca, vai se ajeitando, e mais uma vez nosso herói entra em ação:
- Ô gente ! Ajuda aí, a tia quer passar !
A mulher olha para trás e sorri amarelo.
Já na catraca, ela não consegue passar; seu corpanzil é muito largo e a catraca muito estreita. Aperta daqui e dali, empurra, volta, empurra novamente, o cobrador ajuda, Seu Malaquias que está logo atrás, a empurra com toda força, a volumosa passageira gira a catraca e passa. Devido ao esforço, ela não se conteve e soltou um estrepitante e fedegoso pum. O odor correu por todo o coletivo impregnando o ar e, causando náuseas em alguns, outros se abanavam, Jesus, Nossa Senhora, que que é isso ? Era o que mais se ouvia. Seu Malaquias, consternado com a situação, novamente se oferece para ajudá-la.
- Minha Sora, não isquenta naum. Eu peido, a sora peida, o cobrador peida, a mocinha que está rindo e escondendo a cara com a revista Capricho, também peida. Fica assim naum !
A mulher não sabia onde esconder a cara, de tão envergonhada que ficou. E Malaquias continuou:
- Sora, ô Soraaa! não fica tronquila que eu assumo o peido. Daqui pra frente é meu e ninguém tasca !
A sora, moça...putz ! Mas que é fedido isso é ! Mas xá comigo. Eu já falei pra Sora que eu assumo ? Então é meu.
Ia falando cada vez mais alto e incomodando a todos e continuou :
- Também ninguém abre a janela ! Comeu o que ? Acho que é urubu, num é não ?
A mulher tentava ir mais pra frente, na intenção de se desvencilhar do bêbado e, cada vez mais ele se aproximava. O odor teimava e insistia em permanecer no ar.
- Sora ! Moçaaa ! Mas que cheirin hein ?
Já não aguentando mais a situação, o motorista freia o coletivo abruptamente, corpos se estatelam no piso, uns batem contra os outros, confusão armada, filho disso e daquilo - xingavam alguns - E o motorista se encaminha até onde está nosso agora ilustre bêbado, agarro-o pelo colarinho da camisa e o põe para fora do ônibus. Já na calçada, Malaquias indigna-se, sente-se vilipendiado em seus direitos de cidadão e emenda :
- Tão vendo? A mulher come urubu, peida enxofre e eu é que tenho de sair, isso não é justo !
O ônibus seguiu viagem...

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