Vivemos num país de clima tropical, dizem, né ? Dizem. Mas tem feito tanto frio aqui no Estado de São Paulo, principalmente no litoral, que pinguim tá se abrigando dentro da geladeira ! Eu, particularmente detesto frio. Para terem uma ideia, nesses dias frios nem a barba eu faço, não faço para não sentir aquele ventinho gélido na cara. Alguns poderão me contestar, dizendo que ama o clima frio, que é bom para isso ou para aquilo, que comem melhor, dormem melhor, que até se vestem melhor, com mais classe; para sentirem-se elegantes, isso para não dizer que fazem sexo melhor nos dias frios. Ora bolas !! Então fazem sexo melhor só nos meses de frio? Sexo é bom em qualquer dia e, não tem desculpa se tá frio ou calor, para não se fazer. Depende da parceiro(a) , da cumplicidade, do amor, do afeto.
Pois foi num dia frio, desses de bater o queixo e tremer as pernas, que Luciana conheceu Pedro Paulo. Ele vinha do Albergue Noturno do Brás, caminhava pela rua Piratininga no sentido do Elevado da Radial Leste . Cabisbaixo, mochila de lona carcomida e suja às costas, numa das mãos um arremedo de cajado, usava para ajudar na caminhada e afugentar indesejáveis que cruzassem seu caminho. Há anos havia perdido todas as referências para o álcool. Mal trapilho, andava pelas ruas a catar latinhas de alumínio para vender e garantir uma garrafa de "marvada" e, uma "quentinha" para o almoço ou jantar. Foi nos baixos do viaduto do Metrô, que se encontraram. Luciana puxava um carrinho desses de bagagem, onde carregava todos os seus pertences; também era moradora de rua e, como Pedro Paulo, perdeu seu norte para o álcool. Perto da casa de máquinas da Cia. de Trens Metropolitanos - que faz parte do complexo que interliga metrô e trem - se encontraram. O povo da rua é solidário, sempre tem alguém com uma informação sobre vagas e albergues ou postos de distribuição de alimentos para os desabrigados que vivem nas ruas.
Ela para a caminhada, olha para Pedro Paulo, que vem em sua direção e pergunta-lhe :
- Num tem vaga pra lá ?
- Tem não, tá tudo cheio. E você vai pra onde ? - Responde Pedro
E ela - Num sei não, já bati tudo, tá tudo ocupado !
- Eu conheço um lugar ali perto da Bresser, tô indo pra lá, que ir ? - Diz Pedro.
- É seguro ? Tem nóia não, né ? - Luciana
-Tem não, lá os nóia num vai por causo da Poliça, tá sempre dano batida, que ir ou não ? Já tô indo.
- Vou sim, mas lá chove ?
- Chove não, é embaixo da passarela da casa das máquinas.
Luciana se anima, toma coragem e um trago de "marvada" que Pedro lhe oferece.
Caminhada curta, se ajeitam, acendem uma fogueira para esquentar, tomam mais uns tragos para afastar a desconfiança mútua e o frio congelante. O papo entre os dois fica mais animado. O calor da fogueira não é suficiente para afastar a "grunviana". Pedro Paulo sugere e Luciana aceita que durmam encostados um ao outro para se abrigarem da "friaca" noturna. Lá pelas tantas o calor dos corpos roçando um no outro aumenta a temperatura entre os dois. Vai dai que os dois se entregam à maior das necessidades humanas - lógico que depois da fome e da sede - Quando estão chegando ao ápice, uma luz forte e um brado grosso e muito alto lhes devolvem ao planeta terra.
- Acorrrrrdeemmm vagabunnnnnnnnndosss !!!
Era a polícia em uma de suas costumeiras rondas.
Não estavam os dois - Luciana e Pedro Paulo - a incomodar ninguém. Estavam só aquecendo o corpo e a alma.
Salve o povo da rua, que Deus todo poderoso lhes proteja !
Este blog destina-se a textos e crônicas sobre assuntos relevantes e importantes à vida do cidadão. E tem como princípio levar alegria e reflexão.

Salim!!
ResponderExcluirParabéns pela feliz colocação e conotação do termo "grunviana". Sou nordestino do estado do Piauí e habitante da Cidade de Sao Paulo desde 1976. Nao temos o periodo do frio em nossa cidade natal, Picos-PI. No entanto, o matuto do sertão da região semi-árida se expressa com a palavra "engrunvinhar" quando nos meses de julho e agosto o clima se torna "menos quente"com uma temperatura ai por volta dos 16 graus centigrados no alto das serras do Araripe (divisa entre Piaui e Pernanmbuco,e serra do Mucuripe, entre outras, por exemplo. Estive em julho de 2007 nos lagos formados pelo rio das Mortes, MS próximo ao municipio de Sào Felix do Araguaia numa pescaria. Estávamos acampado às margens do rio, e nas noites embaladas por bebidas quentes, os causos contados pelos pescadores e principalmente pelos nativos da região do rio das Mortes me fez recordar deste termo ao se referir de que 1 ou 2 noites mais frias do ano são conhecidas como "grunviana". Como me criei no mato até os meus 9 anos de idade, ouvia dos moradores da vizinhança esse termo exprimindo: "tô engrunviado de tanto frio".
parabéns.
Forte abraço
Obrigado por ter visitado meu blog e tbm ter lido meu texto. Forte abraço, Deus seja contigo.
ExcluirO texto está ótimo, alem de trazer informações climáticas, nos remete a figuras e vício de linguagem, processo de comunicação (bilateral), o cotidiano de um morador de rua... Enfim, mto bom para ser trabalhado em sala de aula! Adorei :)
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